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Prisioneiro da criatura

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Olho à minha volta e me pergunto:

O que estou fazendo aqui? 

E não sei a resposta.”

Georges Simenon.

***

Em suas memórias, um dos mais fecundos romancistas de nosso tempo, admite se sentir prisioneiro dos personagens que criou. O belga Georges Simenon levava à sério a profissão de escritor, no topo de 192 romances, 158 novelas, textos autobiográficos e artigos para jornais e revistas. Sem esquecer os 176 romances, novelas, contos e artigos escritos sob 27 diferentes pseudônimos. Em sua extensa autobiografia, ‘Memórias Íntimas’, ele definiu o que significa ser escritor:

“Escrever não é uma profissão,

mas uma vocação para a infelicidade.”

***

Ao se dizer preso às suas criaturas, Simenon deveria estar pensando em seu personagem mais famoso, o Comissário Jules Maigret; que personifica uma longa série de novelas e contos, começando com Pietr-le-Letton, de 1931, e que se encerra com Maigret e Monsieur Charles, de 1972. Graças ao inglês Patrick Marnham, autor de uma das mais interessantes biografias do escritor, hoje se sabe como funcionava o obsessivo processo criativo de Georges Simenon. Ele nos diz que Jules Maigret foi construído meticulosamente, a partir das idiossincrasias, hábitos e manias de seu criador. O que vai adiante do cachimbo e do sobretudo com gola de veludo, ao incluir muitas preferências pessoais – os tradicionais bistrôs com balcões de zinco, ostras com vinho branco na Normandia, a cerveja alsaciana, os eventuais pastis.

Além disso, Georges Simenon desceu às minúcias para construir seus personagens, dando-lhes direito a biografia, local e data de nascimento e currículo. Escreve que Jules Amédée François Maigret nasceu em 1884, na aldeia de Saint-Fiacre, perto de Matignon, onde o pai era administrador do castelo do conde de Saint-Fiacre. Iniciou estudos de medicina em Nantes, desistiu e viajou para Paris em 1908, à procura de novos horizontes. Ingressa na polícia como inspetor distrital mas é promovido, chegando a comissário e chefe de brigada, encarregado dos crimes mais importantes. Casado com Louise Henriette Leonard, se muda para um apartamento no Boulevard Richard Lenoir, que seria seu endereço por 50 anos. Em 1953, já aposentado, se retira para Meung-sur-Loire, às margens do Loire. Por coincidência ou acaso, quase no mesmo quadrante de tempo, seu criador vai morar em uma mansão em Lausanne, na Suíça. 

Como escritor fluente e criativo, Georges Simenon enriqueceu seu alter ego com farta simbologia. Seria inimaginável Jules Maigret sem um cachimbo nos dentes, e sem uma coleção deles em sua mesa de trabalho no Quai. Para completar, Madame Maigret está presente em quase todas as tramas como dona de casa e exímia cozinheira, mas vai emergir como co-protagonista em ‘Maigret e o Homem no Banco’ e em ‘O admirador de Madame Maigret’.

***

É visível que as relações com o sexo feminino constituem a única diferença – ou contradição – entre as biografias de Maigret e Simenon. Enquanto o Comissário, mesmo mostrando volúpia ao observar uma bela mulher, é um homem de uma única mulher – Louise Maigret. Já não se pode dizer o mesmo do inquieto e ávido Georges Simenon. Sua primeira mulher foi Regine Renchou, com quem casou em 1923. Logo a seguir, em 1927, vive um caso rumoroso com a diva do french cabaret, a cantora Josephine Baker. Nos Estados Unidos, conhece e casa com Denise Quimet, 17 anos mais jovem. E quase ao final da vida, une-se à Teresa Sburelin, a femme de chambre de sua esposa Denise. Por felicidade, um talento não transferido para o austero e plácido Jules Maigret.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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