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Prodígios no Prata

“Es una tierra de discretos prodígios. Un justo vaiven de aproximación y distancia. (Jorge Luis Borges) *** Luis Barolo e José Salvo eram imigrantes …

prodigios no prata“Es una tierra de discretos prodígios.

Un justo vaiven de aproximación y distancia.

(Jorge Luis Borges)

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Luis Barolo e José Salvo eram imigrantes italianos que chegaram ao Novo Mundo no final do século XIX. Eles mandaram construir monumentais palácios em cada lado do Rio de La Plata. Mas não tiveram tempo de vida suficiente para apreciar o pampa que se descortinava do alto de suas torres. Luis Barolo morreu em 1922, poucos meses antes da inauguração de seu palácio, em plena Avenida de Mayo, no centro de Buenos Aires. Mas não antes de ouvir comentários dos transeuntes, que evitavam passar diante da torre:

“- Está torcido, es muy alto; se va a caer, se va a caer.”

Na outra margem do Prata, José Salvo também não viu sua torre concluída, pois foi atropelado por um carro que seria dirigido por um parente que cobiçava sua fortuna. Em meio a lendas e estórias mal contadas, as torres passaram a integrar para sempre o skyline das capitais platinas. Rezam as lendas que o Palacio Salvo nasceu malfadado, por ter sido construído sobre as ruinas de prédios icônicos, como a Confeitaria La Giralda, então o mais luxuoso clube de Montevidéu.

Ali, em 1917, foi executado pela primeira vez, na presença de seu compositor, Gerardo Matos Rodríguez, o clássico La Cumparsita.

E até mesmo em tempos recentes, moradores da torre citam um certo fantasma, de nome Pedro, que surge no 7º andar, nos dias 29 de cada mês. Coincidência ou não, foi em um dia 29 que ligaram pela primeira vez o farol de grande potência, instalado no alto da cúpula, para sinalizar a entrada do porto aos grandes navios que chegavam da Europa.

Com seus mais de 100 metros de altura, o Palacio Salvo era a maior construção em concreto da América Latina. De sua torre de vigia, em 1939, foi avistado o encouraçado alemão Graf Spee, que fugia da Marinha Real. O Salvo foi projetado pelo arquiteto italiano Mario Palanti, o mesmo que concebera o Palacio Barolo, em Buenos Aires. Ao ver a obra, os irmãos José, Ángel e Lorenzo Salvo se encantaram e decidiram que a cidade de Montevidéu também deveria ter uma grande torre.

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Os irmãos pediram a Palanti que fosse mantida a mesma inspiração da torre argentina – a Divina Comédia, de Dante Aliguieri. O Palacio Barolo é dividido em três temas – Inferno, Purgatório e Paraiso. As nove entradas são os nove círculos do Inferno e os 100 metros de altura correspondem aos 100 cantos e, os 22 andares, às estâncias da obra de Dante. A cúpula do farol representa os nove coros dos anjos celestes e foi decorada com o Cruzeiro do Sul, na exata posição astral do dia e hora da inauguração.

Era então a mais alta construção da cidade e do continente. De seu cume, podia se avistar a cidade de Montevidéu e, de acordo com os planos do arquiteto Mario Palanti, os potentes fachos dos faróis das duas torres deveriam se cruzar nos céus, criando um inacreditável arco de luz sobre o Rio de La Plata.

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Infelizmente, os visionários Palanti, Salvo e Barolo, que dedicaram as monumentais torres a Dante Aliguieri, esqueceram-se de outro gênio italiano, Galileo Galilei. Pois, segundo seus estudos, os faróis de Buenos Aires e Montevidéu nunca poderiam se encontrar, devido à curvatura da Terra.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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