“E de súbito, a lembrança me surgiu. Aquele era o gosto do
pedacinho de Madeleine, que minha tia Léonie me dava aos
domingos pela manhã em Combray…”.
“O Caminho de Swann”.
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Sentado à mesa de um café de Paris, em uma tarde de janeiro de
1909, Marcel Proust molha distraidamente sua Madeleine na xícara
de chá. O prosaico gesto lhe desperta lembranças de sua infância
em Auteuil e da adolescência passada em Illiers, que ele evoca
como Combray em “O Caminho de Swann”, o primeiro dos seus
sete volumes em busca do tempo perdido.
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As Madeleines são singelos bolinhos no formato de conchas de vieiras. As lendas dizem que seu criador, o chef pâtissier do príncipe de Taillerand, quis fazer uma homenagem ao apóstolo São Tiago. Pela receita tradicional, são preparadas com farinha de trigo, açúcar, manteiga e água de flor de laranjeira. Era o confeito preferido no chá dos alegres e elegantes durante os Années d’Or. No entanto, coube ao melancólico e depressivo Marcel Proust conferir às Madeleines a aura de ícone inspirador de um dos grandes clássicos da literatura do século XX.
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Em O Caminho de Swann, ele conta como aceita, distraído e por acaso, as Madeleines oferecidas por sua mãe. No primeiro momento, o doce molhado no chá não lhe recorda nada, até ser levado à boca. Então, a “pequena conchinha de confeitaria, tão gordamente sensual” desperta uma infindável sequência de memórias congeladas. Recorda claramente a infância, os dias passados na casa dos avós, as noites de verão, as visitas de um vizinho que impediam a mãe de lhe dar o beijo de boa noite, o que lhe causa forte angústia. Ele mergulha no poço da memória:
“(…) Quando nada subsiste do passado antigo, depois da morte dos
seres e depois da destruição das coisas (…), o aroma e o sabor
permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando,
ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando
sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis,
ao imenso edifício das recordações”.
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Críticos literários e prefaciadores tentaram interpretar os gatilhos que acordaram a obsessão de Proust pelos temas Tempo e Memo?ria, constantes da primeira à última página do livro. A crítica de cinema Pauline Kael, do New York Times sustentava que Orson Welles faz com o trenó Rosebud, de Cidadão Kane, uma secreta homenagem à Madeleine de Proust. Por sua vez, o tradutor Mário Quintana, na edição da Editora Globo de O Caminho de Swann, sugere que as lembranças enterradas sob camadas de esquecimento e indiferença, quando despertas, abrem o “acesso à insuspeitadas riquezas do passado”. Assim Marcel Proust descreve o que ficou consagrado como o emblemático momento de sua busca:
” Ela mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos
chamados “Madeleines”, que parecem ter sido moldados na valva
estriada de uma concha de Sa?o Tiago. E logo, maquinalmente,
acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte
igualmente sombrio, levei a? boca uma colherada de cha? onde
deixara amolecer um pedac?o da “Madeleine”.
Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os
farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que
se passava de extraordina?rio em mim. Invadira-me um prazer
delicioso, isolado, sem a noc?a?o de sua causa. Rapidamente se me
tornaram indiferentes as vicissitudes da minha vida, inofensivos os
seus desastres, iluso?ria a sua brevidade, da mesma forma como
opera o amor, enchendo-me de uma esse?ncia preciosa; ou antes,
essa esse?ncia na?o estava em mim, ela era eu”.
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