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Proustianas

  “E de súbito, a lembrança me surgiu. Aquele era o gosto do pedacinho de Madeleine, que minha tia Léonie me dava aos domingos …

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“E de súbito, a lembrança me surgiu. Aquele era o gosto do

pedacinho de Madeleine, que minha tia Léonie me dava aos

domingos pela manhã em Combray…”. 

“O Caminho de Swann”.

***

Sentado à mesa de um café de Paris, em uma tarde de janeiro de

1909, Marcel Proust molha distraidamente sua Madeleine na xícara

de chá. O prosaico gesto lhe desperta lembranças de sua infância

em Auteuil e da adolescência passada em Illiers, que ele evoca

como Combray em “O Caminho de Swann”, o primeiro dos seus

sete volumes em busca do tempo perdido.

***

As Madeleines são singelos bolinhos no formato de conchas de vieiras. As lendas dizem que seu criador, o chef pâtissier do príncipe de Taillerand, quis fazer uma homenagem ao apóstolo   São Tiago. Pela receita tradicional, são preparadas com farinha de trigo, açúcar, manteiga e água de flor de laranjeira. Era o confeito preferido no chá dos alegres e elegantes durante os Années d’Or. No entanto, coube ao melancólico e depressivo Marcel Proust conferir às Madeleines a aura de ícone inspirador de um dos grandes clássicos da literatura do século XX.

***

Em O Caminho de Swann, ele conta como aceita, distraído e por acaso, as Madeleines oferecidas por sua mãe. No primeiro momento, o doce molhado no chá não lhe recorda nada, até ser levado à boca. Então, a “pequena conchinha de confeitaria, tão gordamente sensual” desperta uma infindável sequência de memórias congeladas. Recorda claramente a infância, os dias passados na casa dos avós, as noites de verão, as visitas de um vizinho que impediam a mãe de lhe dar o beijo de boa noite, o que lhe causa forte angústia. Ele mergulha no poço da memória:

“(…) Quando nada subsiste do passado antigo, depois da morte dos

seres e depois da destruição das coisas (…), o aroma e o sabor

permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando,

ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando

sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis,

ao imenso edifício das recordações”.

***

Críticos literários e prefaciadores tentaram interpretar os gatilhos que acordaram a obsessão de Proust pelos temas Tempo e Memo?ria, constantes da primeira à última página do livro. A crítica de cinema Pauline Kael, do New York Times sustentava que Orson Welles faz com o trenó Rosebud, de Cidadão Kane, uma secreta homenagem   à Madeleine de Proust. Por sua vez, o tradutor Mário Quintana, na edição da Editora Globo de O Caminho de Swann, sugere que as lembranças enterradas sob camadas de esquecimento e indiferença, quando despertas, abrem o “acesso à insuspeitadas riquezas do passado”. Assim Marcel Proust descreve o que ficou consagrado como o emblemático momento de sua busca:

” Ela mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos

chamados “Madeleines”, que parecem ter sido moldados na valva

estriada de uma concha de Sa?o Tiago. E logo, maquinalmente,

acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte

igualmente sombrio, levei a? boca uma colherada de cha? onde

deixara amolecer um pedac?o da “Madeleine”.

Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os

farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que

se passava de extraordina?rio em mim. Invadira-me um prazer

delicioso, isolado, sem a noc?a?o de sua causa. Rapidamente se me

tornaram indiferentes as vicissitudes da minha vida, inofensivos os

seus desastres, iluso?ria a sua brevidade, da mesma forma como

opera o amor, enchendo-me de uma esse?ncia preciosa; ou antes,

essa esse?ncia na?o estava em mim, ela era eu”.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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