“Para os que sabem, é a indiferença,
não o ódio, o contrário do amor”
Machado de Assis
Nesta semana, dois vídeos viralizaram nas redes sociais. Em um deles, um confeiteiro apresenta ovos de Páscoa vendidos por até 85 mil reais, adquiridos por influenciadores e milionários, tratados como símbolo de exclusividade e luxo. No outro, um menino pequeno mostra, com alegria genuína, um ovo minúsculo, o único que a mãe conseguiu comprar. Ele sorri como se tivesse recebido o mundo inteiro.
E talvez tenha recebido. Pelo menos, o mundo possível para ele.
O contraste é brutal. Não estamos falando apenas de chocolate. Estamos falando de valores. Ou da ausência deles.
Qual é o limite da futilidade humana?
Quando um ovo de Páscoa custa 85 mil reais, não é mais sobre sabor, tradição ou celebração. É sobre ostentação. É sobre transformar o excesso em espetáculo. É sobre perder completamente a referência do que o dinheiro representa na vida real. Enquanto isso, milhões de pessoas lutam diariamente por algo básico: comida na mesa, dignidade, oportunidade.
Quantas crianças poderiam ser alimentadas com 85 mil reais?
Quantos animais poderiam ser resgatados?
Quantas cirurgias poderiam ser realizadas?
Quantas famílias poderiam ter um pouco de alívio?
Não se trata de demonizar a riqueza. Não é sobre condenar quem tem dinheiro. É sobre questionar o uso obsceno desse dinheiro quando ele deixa de ser conforto e passa a ser exibição. Existe uma linha invisível entre prosperidade e desperdício moral. E parece que essa linha vem sendo ultrapassada com uma naturalidade assustadora.
O problema não está apenas no ovo de Páscoa. Está em tudo. Casas de 20, 30, 40, 50, 70 milhões. Festas que custam mais do que bairros inteiros. Objetos que não têm função, apenas preço. Tudo isso convivendo com gente dormindo nas calçadas, passando fome, sem acesso ao mínimo. Não é apenas desigualdade econômica. É desigualdade de sensibilidade.
A futilidade começa quando o luxo deixa de ser pessoal e passa a ser provocação. Quando o consumo deixa de ser escolha e vira espetáculo. Quando o valor das coisas se distancia completamente do valor da vida.
E talvez o mais preocupante seja a normalização. Aplausos, curtidas, compartilhamentos. A extravagância vira conteúdo. O absurdo vira entretenimento. A indiferença vira tendência.
Enquanto isso, o menino com o ovo pequeno nos lembra do essencial. Ele não viralizou pela pobreza. Viralizou pela humanidade. Pela capacidade de ser feliz com pouco. Pela lembrança de que a Páscoa, no fim, é sobre significado, não sobre preço.
Qual é o limite da futilidade?
Talvez ele já tenha sido ultrapassado há muito tempo.
E talvez a pergunta mais incômoda não seja até onde vai a futilidade, mas até quando vamos aplaudi-la.


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