Sempre gosto de ressaltar – e nunca acho demais repetir essa informação – que eu preferia escrever sobre assuntos mais amenos, tratar de tópicos bem menos ásperos e usar a coluna para aplaudir as notícias boas, saudar as iniciativas positivas e brindar a solução de qualquer encrenca, minha ou do coletivo, no âmbito profissional ou particular. Mas, às vezes, preciso ser insistente e ser recorrente em determinados temas. E, hoje, com tristeza e perplexidade, preciso comentar um recente relatório da ONU que aponta para um dado espantoso: 90% da população mundial tem algum preconceito contra as mulheres.
Qual o motivo deste preconceito assim tão escancarado? Também não faz diferença nenhuma escondê-lo, não é? Ele está cada vez mais presente nas estatísticas que apontam para um crescimento dos mais diferentes tipos de violência contra as mulheres. Aqui, não me refiro somente à violência física, que é a mais fatal, mas também à psicológica, moral, patrimonial e sexual, que podem ser enquadradas como violência doméstica. Por que, alguém me explique, por favor, existe esse ódio disseminado contra as mulheres nos mais variados cantos do mundo?
O estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), divulgado em 12 deste mês, assinala que o preconceito contra as mulheres não diminuiu desde a última década. Dos entrevistados, 25% acreditam que é justificável agredir uma parceira. Tal relatório, que cobre 85% da população mundial, aponta que metade dos consultados entendem que os homens são melhores líderes do que as mulheres. E duas em cada cinco pessoas que responderam ao estudo disseram que os homens também se saem melhor como executivos.
Mas vamos olhar mais especificamente para o cenário do Brasil, único país de língua portuguesa que consta no estudo. Conforme o levantamento, 84,5% dos entrevistados têm pelo menos um tipo de preconceito contra as mulheres. O que nem é de espantar tanto se levarmos em conta que nos quatro anos de governo de Jair Bolsonaro tivemos um total desmantelamento das políticas públicas voltadas às mulheres e um retrocesso preocupante nos direitos adquiridos. E, assim como no contexto global, mais de 39% acreditam que as mulheres não desempenham, na política, uma função tão bem quanto os homens.
O chefe do Escritório de Desenvolvimento Humano do Pnud, Pedro Conceição, enfatiza que as normas sociais que prejudicam os direitos das mulheres danificam a sociedade em geral e atrasam o avanço social. “Desde 2019 que o nosso índice de desigualdade de gênero que publicamos no relatório não progride. E isto pode parecer um pouco contradição, porque, ao mesmo tempo, tem havido progressos em alguns aspectos de igualdade de gênero, por exemplo, no acesso à educação”, reflete Conceição.
O fato é que, nós mulheres, precisamos cada vez mais engrossar as fileiras dos movimentos pela igualdade de gênero, pela garantia dos nossos direitos, pela equiparação salarial ao exercer a mesma função que um homem, pela maior participação em cargos gerenciais, pela divisão de tarefas domésticas, pelo poder de decidir sobre o nosso corpo, pela roupa que queremos usar, o lugar que desejamos frequentar e, principalmente, a opção de encerrar qualquer relacionamento sem o risco de sermos agredidas e mortas porque a outra parte não aceitou o término.
Como o feminismo é uma luta coletiva, já que não ignoramos que uma sociedade boa para as mulheres é uma sociedade boa para toda a população, convoco: “companheiras me ajudem que eu não posso andar só, eu sozinha ando bem, mas com vocês ando melhor”. Vamos seguir unidas e fortes para combater tanto discurso de ódio e reverter, quem sabe um dia, esse preconceito enraizado.


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