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Quando chegou a minha vez, mudaram o jogo

Muitas vezes, ao analisar tudo o que aprendo nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, penso nas transformações que aconteceram ao longo da minha própria vida. 

Na minha geração, aprendíamos que crescer significava assumir responsabilidades, trabalhar, conquistar estabilidade, constituir família e, com o passar do tempo, cuidar também dos mais velhos. Havia quase um roteiro social para a vida adulta.

Esse roteiro mudou.

Hoje, autonomia, liberdade e experiências pessoais ocupam um espaço muito maior. Para muitos jovens, viajar pode ser mais desejado do que comprar uma casa. Ter flexibilidade profissional pode ser mais importante do que permanecer décadas no mesmo emprego. Casar e ter filhos deixaram de ser etapas obrigatórias da vida adulta.

Não se trata apenas de uma diferença entre gerações. Estamos diante de uma mudança mais profunda na forma como a sociedade entende sucesso, compromisso, família e até felicidade.

Também mudou a maneira como convivemos. Durante muito tempo, finais de semana eram sinônimo de visitas, almoços demorados e encontros ao redor da mesa. Batizados, noivados, casamentos e aniversários reuniam famílias inteiras. Hoje, descobrimos relacionamentos, viagens, mudanças de emprego e até separações pelas redes sociais.

O trabalho também deixou de representar apenas estabilidade. Minha geração foi ensinada a valorizar a carteira assinada, a casa própria e o patrimônio construído aos poucos. As novas gerações passaram a valorizar também mobilidade, propósito, flexibilidade e experiências.

Fomos educados em uma sociedade na qual determinados gestos de respeito eram transmitidos principalmente pela convivência. Ceder um lugar para uma pessoa mais velha ou ajudar quem tinha dificuldade fazia parte de um código social aprendido em casa, na escola e na comunidade.

Hoje, muitos desses comportamentos precisam ser lembrados por placas, campanhas, espaços preferenciais e até pela legislação. Não porque as pessoas tenham necessariamente se tornado menos solidárias, mas porque a sociedade se tornou mais individualizada, acelerada e menos baseada em códigos coletivos compartilhados.

E talvez aqui esteja a maior mudança. Durante muito tempo, fomos ensinados a pensar primeiro no grupo, na família, na comunidade. As novas gerações foram educadas em uma sociedade que valoriza muito mais a individualidade, o direito de escolher e a construção do próprio projeto de vida.

Nem tudo era melhor antes. Nem tudo é melhor agora. Cada transformação trouxe ganhos e perdas. Temos mais liberdade para escolher nossos caminhos, mais tecnologia, mais possibilidades profissionais e diferentes formas de constituir família. Ao mesmo tempo, convivemos com relações mais rápidas, vínculos mais frágeis e uma sensação crescente de que cada pessoa precisa resolver a vida praticamente sozinha.

Talvez seja por isso que, às vezes, tenhamos a impressão de que mudaram o jogo justamente quando chegou a nossa vez. É fato que o jogo sempre muda, mas não na velocidade que estamos vivendo. O desafio é compreender o que vale a pena preservar daquilo que aprendemos e o que precisamos aprender com quem veio depois de nós. Porque os costumes mudam, os projetos de vida mudam e as relações se transformam, mas a necessidade humana de pertencimento, cuidado e convivência continua atravessando todas as gerações.

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]
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