Não consegui escrever a coluna na semana passada. Creio que foi a primeira vez que me ausentei do site desde que aceitei o convite do editor Vieira da Cunha. Em outras ocasiões, mesmo enfrentando problemas de saúde, arrumava um note book emprestado e escrevia de onde eu estivesse. Inspiração nunca faltou. Nem foi o motivo que me impediu de escrever desta vez. Remexe ali e aqui e sempre se descobre um assunto para dissecar. Notebooks dos amigos também sempre aparecem para salvar qualquer situação. Mas o que não se compra no varejo, não se pede emprestado e não se recupera com vitaminas e sais minerais é o frescor e o vigor da mocidade.
Quando não se tem mais 20 anos, tudo se torna mais complicado. Uma dor de cabeça fica mais agonizante e com facilidade transforma-se numa enxaqueca. Uma preocupação qualquer ocupa noites e noites os nossos sonhos e pesadelos. E os valores adquiridos com a experiência dos anos só servem para alongar os sofrimentos. Assim, o que parecia uma simples intervenção cirúrgica para corrigir um desvio de septo no nariz, pode acarretar uma longa recuperação, um afastamento prolongado do trabalho, um volume avantajado no rosto perto do nariz e a total indisposição para chegar perto de qualquer objeto com mais de uma tecla, como um computador.
Assim, enquanto sucumbia aos primeiros golpes de uma anestesia geral, na noite de terça-feira da semana passada na cama do hospital, preparava mentalmente o que seria a próxima coluna. E quando o otorrino se aproximou de mim com suas roupas brancas cheirando a remédios, pensei: “isto será moleza e breve, muito breve, estarei em casa escrevendo minha coluna”. Parte da profecia estava certa. Fui mandada de volta para casa na mesma noite, por pura insistência minha junto ao médico otorrino. Mas só consegui olhar para o computador e voltar a ter uma pequena afeição pelo próprio uns três dias depois da cirurgia.
Como também aprendi com o poeta Casimiro de Abreu que os anos não trazem mais a aurora da vida e a infância querida, aproveitei para tirar alguma vantagem deste repouso forçado e da distância virtual de vocês, meus leitores amados. Não tive que escrever, por exemplo, sobre o massacre da escola de Realengo. Nem me manifestar sobre a visita do Obama. Ou o show do U2 e o carisma do Bono. E, no final de semana, ainda um pouco abatida, suguei todo o carinho possível de mamãe, que completou, em Butiá, os seus 76 anos de existência tão cansada da vida que parece brigar com os novos dias.
Por isso, deixei de escrever. Fiquei ausente. Não compartilhei com vocês os meus momentos de inquietação ou prazer. Andei solitária e cabisbaixa. Como quem se esconde. Como quem se protege. Como quem pede desculpa por não ter mais 20 anos.

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