– Saiam todos que não deveriam estar aqui, por favor!
Apesar do tom não ser agressivo, o pedido foi convincente, pois mesmo havendo um ou outro olhar surpreso, das oito pessoas então presentes, restaram duas.
– Vocês são as nossas enfermeiras?
Eram 7h15min, e ele dividia com outro paciente um espaço na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um conceituado hospital carioca onde já estivera em cirurgias delicadas e de onde – é óbvio – saíra vivo.
Depois de sua primeira permanência numa UTI, anos atrás, surpreso pela total falta de respeito ao paciente como enfermo e como pessoa, iniciou uma pesquisa com outros sobreviventes e muitos médicos para saber se fora, por mau acaso, vítima de uma exceção. Não, UTI é isso mesmo, pelo menos no Rio.
Declaração de um médico amigo dele, com 50 anos de profissão:
– UTI é um lugar onde não deveriam ir nem pacientes nem médicos. UTI é um Inferno.
Dedução pouco piedosa quanto à referência ao Inferno: os enfermeiros acham que os pacientes vão morrer em seguida e a preparação para o Inferno tem grande sentido humanitário.
Dia seguinte, removido para o quarto, perguntou o nome da enfermeira:
– Helga Daniela.
– Você descende de alemães?
– Não.
– ?
– Helga era o nome de uma antiga namorada do meu pai.
– Como?!
– Isso mesmo. Minha mãe só descobriu quando eu já completara cinco anos. Desde então, só me chama de Daniela. Mas eu prefiro Helga mesmo.
Coloquei o relato acima numa terceira pessoa, mas foi comigo mesmo. Síntese: quarta-feira, uma infecção da parótida (glândula salivar) direita, não-diagnosticada, fez-me desmaiar. Minha empregada, ao perceber que eu ia desmaiar, me amparou o suficiente para que eu não tivesse uma queda brusca. Uma ambulância levou-me ao hospital e à UTI. Como nunca desmaiara, passei por uma bateria de exames, entre os quais o do eletrofisiológico, o qual me reprovou e determinou a colocação de um marcapasso. Como a parótida está exigindo sete dias de antibiótico e de anti-inflamatório, retornei à casa e dia 19 volto ao hospital para concluir o processo.
Portanto, “Nada como dantes no Quartel de Abrantes”.
Inté.
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