Naquele dia claro de inverno, ele seguia pela mesma estrada de terra que percorrera vezes sem conta nos tempos de criança e adolescente. Mas desde muito, ninguém mais andava por ali – a grama cobria as trilhas por onde passaram carretas de boi, tropilhas de cavalos e a charrete verde que ele tanto gostava. Os anos passaram rápido demais, carregando para longe suas lembranças mais preciosas.
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Depois de tantos anos, ele tentava recordar o que havia atrás das curvas do caminho. Ali, o galpão abandonado, onde brincavam de esconde-esconde. Depois, as velhas árvores, que o avô plantara nos tempos dos tropeiros. Então, ao longe, o vulto branco da casa grande. Desligou o motor e a quietude do campo tomou conta de tudo. Naquela manhã, sentira uma inquietação difícil de explicar. Pensava nos velhos amigos, que não sabia por onde andavam. Ao espelho, olhou as rugas do rosto como se fosse a primeira vez. É, estava ficando velho e devia sossegar um pouco. Mas não faria como os amigos, que ficavam na praça jogando damas. Não se sentia doente e o coração ainda batia forte. Queria se ocupar, ser útil – e, ademais, passar os dias na praça era como morrer antes da hora. Lembrou o que o avô falava, quando topava com alguém sem fazer nada:
“ – Vá se ocupar, rapaz, cabeça vazia é oficina do diabo”.
Era engraçado, o avô dizia aquilo, ria baixinho e repetia:
“-…Oficina do diabo, oficina do diabo…”.
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Sentou em um tronco e ficou ouvindo o sopro do vento nas árvores. O sol descia por detrás das altas árvores e a paisagem se tornava mais e mais familiar, com personagens que se moviam lentamente, como nos antigos filmes em preto-e-branco, que ele assistia de mãos dadas com a mãe. De qualquer maneira, estava de volta a lugares quase esquecidos – a casa branca junto aos cinamonos, o catavento girando lentamente no fim de tarde. Até lembrava o guincho agudo do metal, pois o avô sempre esquecia de lubrificar as engrenagens enferrujadas.
Não sabia quanto tempo ficou naquele lugar. Já escurecia quando ergueu-se e caminhou para o carro. O vento soprou forte, trazendo cheiros de mato e de terra molhada. E, por um instante, pensou ter ouvido o som de metal arranhado, quase que um lamento.
Seria um fiapo de sonho ou a imaginação estava brincando com ele? Aspirou fundo o ar frio, sentindo o coração bater como um relógio desregulado. E, de algum canto da memória, chegaram os versos que ouvia quando era criança:
“Sempre que me aproximava,
Do sonho correndo adiante,
Mais me sentia distante,
Daquilo que procurava!” *
(*Jayme Caetano Braun, “Querência, Tempo e Ausência”).


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