Resolvera engajar-se. Lutar pelo que é de direito. Debater, civilizadamente. Nada poderia estar tão emperrado assim. Inscreveu-se na Pré-Conferência Municipal da Cidade por setor. Dali, sairiam delegados para outra instância e mais outra, até a esfera nacional. Buenas. Já que tem que ser assim…
Corajosa, orgulhosa de sua decisão, saiu no meio do trabalho, pediu licença e disse: vou defender o livro e a literatura. Chegou ao local determinado, esperou mais ou menos uma hora até reunirem-se umas 70 pessoas. Ok. São muitas pessoas para um setor tão carente. Editores, representantes de várias bibliotecas, escritores, enfim. O setor estava ali.
Após uma explanação do que estava sendo feito no município, surgiu a primeira questão de ordem. Questão de ordem, para quem não está acostumado, é um assunto que passa na frente, porque é fundamental, e não necessita inscrição. O sujeito levantou e perguntou: qual é a legitimidade da mesa? Quem definiu os componentes? Bom, Fu Lana nunca compreendera as questões que eram levantadas no movimento estudantil, mas pôde perceber que lá se ia a noite, pois começara uma discussão que parecia interminável. “Eles foram eleitos pelo Conselho, são gestores. Mas quem votou neles? Eu não fui avisado, etc.”
Dezenas de minutos depois, muita altercação: levantam e baixam a voz, pegam o microfone, põem o dedo em riste. Fu Lana já ia desistindo de mudar o mundo, pela centésima vez, quando o cidadão e seu grupo se contentaram com algumas explicações.
Ok. Vamos nos reunir em grupos e tirar propostas. Vamos dar um número pra cada um e os números iguais se reunirão e…
Um momento, uma questão de ordem: por que não podemos nos reunir de forma espontânea, afinal viemos juntos representar cada setor?
Blá-blá-blá, começa outra discussão e… Ok. Podem ser reunir como quiserem.
Ufa, oba: propostas. Assim, os editores pediram maior compra de livros pelo poder público, com obrigatoriedade de tantos por cento de autores gaúchos; as bibliotecas precisam de mais doações e, logicamente, maior compra de livros pelo poder público; os escritores querem mais concursos; o IEL e outros setores precisam ser recuperados; e cada grupo escreveu sua proposta. Houve até uma sugestão de que outras secretarias deveriam abrir mão de seus recursos para ajudar o livro e a literatura – viagens à parte.
Infelizmente, chegou a hora de outra questão de ordem. Por que discutir as propostas antes e escolher os delegados depois? Vamos inverter! Novo debate, porque sim, porque não. Ok. Vamos escolher os delegados.
Cada grupo tirou um nome a cada cinco pessoas. Dava um número quebrado. Foi uma discussão enorme para saber quem sairia da nominata ou inscreveriam mais duas pessoas para arredondar. Seriam então 15 e não 14 delegados e meio. Novo acirrado debate, porque isso não seria permitido pelo regimento da conferência, por isso e por aquilo.
Ufa. Ficaram em quinze delegados, duas pessoas se inscreveram. Já era tarde da noite e as propostas ainda não tinham sido nem lidas pelo grande grupo.
Fu Lana arrefeceu. Encolhida, impotente, carente, com fome e cansada, pensou: …e depois deve haver outra conferência com 12 horas de duração? Logo vem a instância estadual e ainda a nacional? Tomara que eles tenham forças, pois o livro e a literatura dependem desse trabalho. E, solenemente, envergonhada, cabisbaixa, saiu da sala sentindo-se incapaz como ser político. Democracia exige um talento especial. E gente com muuuuuita força de vontade.

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