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Que País é esse?

Por Márcia Martins

Às vezes, penso em escrever a coluna sobre as amenidades que transformam os nossos dias em períodos menos complicados de enfrentar. Ou sobre afetos que demonstram, com pequenos atos inesperados, como é maravilhoso ainda cultivar certas amizades e amores familiares. Ou sobre a minha felicidade ao completar 472 dias no mais total isolamento, não só pela enorme preocupação que tenho com a minha saúde, mas, principalmente pela responsabilidade com o coletivo. Mas, num gesto tresloucado, leio os jornais, percorro os sites de notícias ou o que é pior, resolvo ver alguns depoimentos da CPI da Covid. 

Imediatamente, as boas intenções de uma coluna linda, leve e solta desabam. É tanta barbaridade e absurdo que os (as) senadores (as) conseguem de resposta, tanto desprezo com a vida da população demonstrado pelo presidente Jair Bolsonaro ao ignorar o tamanho da pandemia, tanto despreparo da sua equipe e tanto negacionismo que fica impossível fugir dos assuntos ásperos. 

E a música “Que País é esse?”, escrita em 1978 pelo Renato Manfredini Júnior, o tal do Renato Russo, parece ter sido feita com base nos dias atuais, apesar de ter 43 anos. Primeiramente ela foi executada em Brasília com a banda Aborto Elétrico. Mas foi lançada em 1987, na época da Constituinte, pela Legião Urbana, que tinha Renato como vocalista. Ela começa dizendo que nas favelas, no senado, sujeira para todo lado, ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. 

Talvez nesta última frase resida a minha contrariedade com a música do Renato em 2021. Eu não acredito mais no futuro desta nação. Não tem mais jeito. Aqui no Brasil tudo deu errado e não adianta tentar refazer porque os moldes já estão viciados. E arrisco afirmar que muitos, com um mínimo de noção da realidade brasileira, também já perderam a esperança neste futuro. 

Alguém escreveu no twitter e trata-se da mais pura verdade. É o maior caso de corrupção da história do País. Não só porque os envolvidos nesta trama sórdida mal explicada de compra de vacinas estavam se preparando para desviar bilhões de reais ou dólares, mas porque eles mataram mais de meio milhão de pessoas para este fim “lucrativo”. Se você caro leitor, perdeu algum parente vítima da Covid-19, saiba que existem culpados pela morte. Se você cara leitora, chorou a partida de alguma amiga ou amigo em decorrência do Coronavírus, saiba que existem responsáveis pela sua perda. 

Renato já sentenciava: “terceiro mundo, se for piada no exterior, mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão, quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão”. Pois, por uma propina de US$ 1 por dose para a aquisição de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca contra a Covid-19, um diretor de logística do Ministério da Saúde colocou em risco a vida dos brasileiros e brasileiras. A ideia – parece – era vender todas as almas num único leilão. Aguardem novas revelações. 

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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