
O convite era interessante – fazer uma palestra para estudantes de um curso superior de Comunicação. Ausente do circuito há anos, procurei antes conhecer melhor meus ouvintes. Foi quando ganhei um alerta de um amigo professor, velho companheiro de jornalismo:
” – Te prepara, estamos lidando com a Geração Y,
uma moçada diferente daquelas de nosso tempo.”
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Fui direto ao Google, o mago merlin da Internet, para saber algo mais sobre a tão falada Geração Y. Descobri – tardiamente – que os tais Millennials representam um fenômeno surpreendente pelas atitudes e comportamentos sociais. Uma nova tribo, nascida entre a década de 80 e o início dos 2000, típica dos ambientes altamente urbanizados, os Millennials cresceram sob o guarda-chuva da High Tech e com um acesso absurdo à Informação. Claro que mudei o tema da palestra: os “Desafios da Comunicação” deram lugar a “Os Paradoxos da Comunicação”. E comecei projetando na tela um cartoon do inglês Gilbert Keith Chesterton, sem identificação mas com a provocação:
“- Este foi um dos grandes pensadores do século 20,
que ajudou a criar um paradoxo chamado Internet.”
Não deu outra. Caras de espanto e troca de mudas interrogações. Era até possível adivinhar a pergunta na cabeça de todos:
“- Quem é?”
ou talvez algo mais irreverente, como:
“- Em que banda o cara toca?”
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O jornal inglês The Daily Telegraph publicou em 2019 um artigo sobre pesquisa que revelou que 25% dos jovens ingleses pensam que Winston Churchill, Charles Dickens e o Mahatma Gandhi são personagens de ficção. E mais – que Sherlock Holmes e Robin Hood realmente existiram. Em um dos ensaios que produziu às centenas, Gilbert Keith Chesterton escreveu há 70 anos que nossa relação com o passado estava fadada a mudar radicalmente. Ele antecipava que o crescente volume de informações sobre o presente acabaria por reduzir o interesse das pessoas sobre o passado. Incluindo figuras e episódios históricos que transformaram o mundo no que ele é hoje.
As previsões de GKC são confirmadas a cada dia: não importa o quanto irrelevante seja uma notícia, no mesmo minuto, ela será multiplicada milhares de vezes, sem análise ou reflexão. Por essas e outras, não foi surpresa constatar o desconhecimento da novíssima geração da existência de um dos maiores pensadores de nosso tempo. Pois até até mesmo bons amigos, católicos militantes, ignoram que o quase herege Gilbert Keith Chesterton está na fila de beatificação. A lentidão do Sacro Colégio talvez se explique se os pesquisadores se defrontaram com suas muitas irreverências com o sagrado.
Quando o escritor morreu, em 1936, não conseguiram baixar seu caixão pelas escadas da casa em Beaconsfield. Motivo: sua lendária corpulência – pesava quase 150 quilos – e o caixão teve que sair por uma janela do segundo andar e suspenso por cordas, baixar até o carro fúnebre. A ironia da situação não escapou a seu biógrafo:
” Eis um paradoxo verdadeiramente chestertoniano:
para vencer a gravidade, basta a leviandade.”
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