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Quem roubou a Mona Lisa?

Pablo Ruiz Picasso investiu como um minotauro contra a arte acadêmica de seu tempo. Inventou o cubismo e assombrou seus contemporâneos com fúria criativa …

Pablo Ruiz Picasso investiu como um minotauro contra a arte acadêmica de seu tempo. Inventou o cubismo e assombrou seus contemporâneos com fúria criativa em pintura, desenho, escultura, gravura, fotografia, texteis, colagem, cerâmica, design de objetos e até na poesia. Picasso é um gênio sem par do século XX. No entanto, biógrafos e críticos de arte encontraram uma mancha em sua biografia: Picasso foi também um ladrão de grande talento.

A insólita acusação poderia ficar restrita ao episódio do desaparecimento da Mona Lisa do Louvre em 1911, quando vários pintores, assíduos frequentadores do museu foram presos como suspeitos. Picasso era um deles, mas foi inocentado das acusações, muito embora o quadro permanecesse sumido por dois anos, antes de retornar ao museu e se tornar a pintura mais famosa da história da arte.

Esta velha estória voltou a circular semanas atrás, por ocasião da abertura da exposição “Picasso e os Mestres” que acontece nos mais importantes museus da França – Le Grand Palais, Louvre e Musée d’Orsay. Resultado de uma inédita cooperação entre as curadorias de grandes museus, apresenta 300 obras de grandes mestres da pintura universal, colocadas lado a lado com as interpretações (hoje se fala “releituras”) criadas por Picasso ao longo de sua carreira.

Esta extraordinária exposição pode ser a mais cara da história da arte, com um orçamento de US$ 6 milhões, dos quais US$ 2 milhões apenas em seguro e transporte. A comparação das versões de Picasso, exibidas ao lado de grandes mestres, está rendendo muita tinta e papel. Os críticos não poupam adjetivos – desde apropriação do talento alheio até desrespeito e mesmo plágio.

A lista das “vítimas” inclui monstros da pintura, como Cézanne, Courbet, Cranach, Delacroix, El Greco, Goya, Ingres, Matisse, Poussin, Rembrandt e Utrillo. Apenas do “Rapto das Sabinas” de David, o gênio catalão fez 14 diferentes versões. O famoso “Las Niñas” de Diego Velasquez ganhou 50 cópias e um dos ícones do impressionismo, “Déjeneur sur l’Herbe”, de Édouard Manet, nada menos do que 167 versões.

Ninguém ignora que era prática comum aos pintores no início de carreira,   se exercitarem, copiando pinturas dos grandes mestres. Mas Picasso fez isto durante toda a sua vida, praticando suas distorções e subversões, enquanto se movia do realismo para a fase azul, fase rosa e cubismo, avançando por terrenos então desconhecidos da pintura.

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A polêmica discussão impulsiona o sucesso de “Picasso e os Mestres”, levando multidões aos museus. Mesmo em Paris, não é sempre que se pode admirar uma galeria de nus com a “Maja Desnuda” de Goya, a “Olympia” de Manet, a “Odalisca” de Ingres e uma das mais belas Venus de Titian, colocados ao lado das voluptuosas reinvenções da  mulher, segundo Picasso. Mas a mostra guarda ainda mais motivos para o visitante se extasiar. Em 1900, no Le Grand Palais, foi exibida uma tela de um desconhecido pintor de 19 anos, chamado Pablo Picasso. Agora o mesmo museu mostra seu primeiro auto-retrato junto a um conjunto inacreditável de auto-retratos famosos: Paul Gauguin, Rembrandt, El Greco e Francisco Goya.

Em outro momento de reinvenção picassiana, um “Menino conduzindo   um cavalo”, de 1906, foi posicionado ao lado de “San Martin e o Mendigo”, a tela antológica de El Greco, pintada em 1599, em Toledo.

Os curadores propõem outras similitudes impressionantes, como o cubista “Homem com uma Guitarra”, vis-a-vis com o “São Francisco de Assis em sua Tumba” que Francisco de Zurbarán pintou 300 anos antes.

Os visitantes não tem tempo para recuperar o fôlego. No Museu d’Orsay  e no Louvre, estão outras comparações poucos conhecidas, como as muitas releituras de “Déjeuner sur l’Herbe” de Manet, e visões cubistas de “Femmes de Algiers”, de Delacroix.

Embora tenha pintado com autoridade e originalidade durante toda sua vida, Picasso nunca deixou de reverenciar – ao seu estilo – os grandes mestres. Já com 91 anos, pintou uma série de auto-retratos, claramente inspirados nos auto-retratos que Rembrandt fez na velhice.

Na mesma época, um ano antes de morrer, declarou:

“Arte não tem passado nem futuro – a arte dos gregos, dos egípcios e dos grandes pintores não estão no passado. Estão mais vivas do que nunca estiveram”.

Assim, 37 anos depois de sua morte, o gênio andaluz está de regresso a Paris para celebrar seus mestres.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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