
A notícia foi publicada há alguns dias em jornais de Madrid, México e São Paulo. Em uma rara entrevista, Joaquín Salvador Lavado, o Quino, disse que estava de férias e não sabia quando voltaria à prancheta. Ele negou que tenha “assassinado” Mafalda, a personagem que o tornou famoso, mas hesita em voltar a desenhá-la. Acha que os jovens de hoje estão desiludidos e não querem mais mudar o mundo para melhor, ao contrário dos jovens da década de 1960:
“Como Mafalda, a juventude tinha ideais políticos e achava que, com os Beatles, o Che, o Papa e o maio de 68 em Paris, podia mudar o mundo para melhor”.
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Uma vez, na livraria El Ateneo, em Buenos Aires, me deparei com uma concorrida sessão de autógrafos, no lançamento do álbum de quadrinhos “Toda Mafalda”. Quino estava lá, parecendo perdido em meio à pequena multidão que o cercava, pedindo autógrafos e dedicatórias. Foi impossível não associar a cena aos seus cartoons mais corrosivos, que mostram o comportamento das pessoas, quando confrontadas com celebridades instantâneas do esporte ou do show-business.
As notícias sobre as férias de Quino já circulavam desde algum tempo, quando as tiras de Mafalda começavam a ser repetidas nos jornais.
Em 23 de outubro de 2009, depois de muitos anos de recesso, Mafalda ressurgiu no jornal italiano La Repubblica, criticando as declarações misóginas do primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
Alguns interpretaram esta reaparição de Mafalda como a última bravata e, talvez, a despedida definitiva. Já ha um certo tempo, Quino sofre de problemas de visão, que o dificultam de fazer o que mais aprecia na vida – desenhar.
O desabafo do cartunista parece carregado da desilusão de alguém que, há cinco décadas, denuncia os problemas do mundo e não os vê solucionados, ao contrário, os vê cada vez mais agravados. Avesso a ser considerado como um assunto jornalístico ou promocional, justifica as recentes aparições como compromisso profissional com o lançamento das reedições de Humanos Nascemos, Que Presente Inapresentável e 10 Anos com Mafalda.
A saída de Quino de cena reduz ainda mais o seletíssimo grupo dos grandes cartunistas de humor de nossos tempos. Primeiro, perdemos Hergê, o criador de Tintin e, em 1977, René Goscinny, de Asterix e Lucky Luke. Mais tarde, em 2000, morreu Charles Schulz, o pai de Charlie Brown e Snoopy, que podem ser considerados os irmãos mais velhos de Mafalda e sua turma. Agora, estamos ameaçados de ficar sem o precioso traço de Quino, que tanto divertiu a nós – e a ele mesmo – satirizando políticos, militares, empresários, burocratas e donas de casa suburbanas, inclusive o bodegueiro da esquina.
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Aos 77 anos, Quino se diz velho demais para trocar a prancheta pelo computador. Afirma que poderá voltar a criar, mas precisa de tempo antes de enfrentar a angústia de preencher o papel em branco. Quando o entrevistador pergunta de seus motivos para abandonar as historietas em quadrinhos, ele responde com um antigo provérbio espanhol:
“- El diablo sabe por diablo, pero más sabe por viejo”.
Mal traduzindo:
“O diabo sabe das coisas porque é diabo, mas sabe ainda mais porque é velho”.
Em cartoon recente, como um inconfessado autorretrato, Quino parece antecipar sua aposentadoria. Ele se mostra inconformado, depois de desenhar um belo par de chinelos. Mas não se pode deixar de notar a tristeza de quem, há mais de 50 anos, nos faz sorrir através das diatribes de Mafalda e seus amigos, Felipe, Manolo, Miguelito e Susanita.

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