No capítulo XLIX, do primeiro volume, dom Quixote fala de um cavalo de madeira que voa. Como prova de sua existência, diz que uma cravelha que serve para o cavaleiro dar a direção ao bicho está no arsenal dos reis e ainda garante que foi metida num estojo de pele de vitela para que “no se tome moho”. Na tradução de Almir de Andrade e Milton Amado, para a Ediouro, consta “para não enferrujar”. Na de Sérgio Molina, para a editora 34, “para que não seja tomada de ferrugem”.
Como não há nenhuma indicação de que a cravelha (ou manivela, segundo Andrade e Amado) é de metal, por que não pensar que é de madeira como o resto do cavalo? Sem falarmos que é difícil confundir a palavra “moho” (mofo) com “herrumbre” (ferrugem). A impressão que fica é que a atenção dos tradutores sim é que foi tomada pela ferrugem.
Deu no jornal, há muito tempo
o0o Acompanho de longe a cruzada do promotor Maurício Antonio Lopes contra o Tiririca. Não devia me parecer estranha, afinal a lei exige que um político saiba pelo menos assinar o nome. Mas a sanha é tanta que comecei a estranhar e, quando dei pela coisa, estava me perguntando: por que o promotor Maurício Antonio Lopes não gastou toda essa energia tentando impedir a candidatura de um dos inúmeros corruptos notórios? As leis são curiosas e, algumas vezes, os homens da lei são mais curiosos ainda.
o0o Arnaldo Jabor: “Sei que grandes frustrações na vida se compensam por elusivas fantasias de grandeza. Sei que a onipotência não realizada, o narcisismo que parou no meio provocam ódio (…).” Sim, ele sabe. Só não aplica a sabedoria ao se olhar no espelho.
o0o Arnaldo Jabor: “E mais: criticam-me mais que o filme.” Ao filme.
Notícias do paraíso
Deus criou a mulher, e Milo Manara viu que era bom (ou boa), e a desenhou.
Antes tarde
Não fui um enfant terrible. Mas me preparo pra ser um ancien terrible.
Dicionário do mau digitador
– Especialimente. Coma só coisas de primeira.
– Bastalha. Chega de guerra, pô.
– Poupulacho. Pobre, mas econômico.
– Falçanha. Façanha pra boi dormir.
Tênis
Há esportes que são ótimos para se praticar, mas um verdadeiro porre para se assistir. Acho que mais chato que tênis só mesmo um campeonato de bilboquê. Nem a Ana Ivanovic me faz mudar de ideia.
Deu na UOL
“Problema para lidar com dinheiro é sinal inicial de doença de Alzheimer.” Ai, ai, ai, ai. Nasci doente.
Provérbio
Beleza não põe mesa? Como é então que modelos, atrizes e prostitutas lindas estão ricas?
A maior parte da famosa sabedoria popular não passa de consolo de pobres, feios e idiotas.
Os bons serviços da Oi
A Oi me ofereceu serviço de banda-larga de oito megas. Veio o técnico e me disse que na minha rua, até a minha esquina, não era possível mais que dois megas. Dois megas eu já tinha. Mas o técnico trocou os plugues nas chamadas caixas remotas até minha casa e, milagre, conseguiu quatro megas. Aí veio a conta: a Oi cobrava um mês pelo preço de dois. Após uma hora ao telefone, percorrendo os ínvios escalões da burocracia, consegui que se reconhecesse o erro. Para surpresa dos burocratas, a mudança de programa não constava de seus registros, embora estivessem cobrando duplamente por ela. Eles se alegraram por conseguir me proporcionar quatro megas quando tinham me oferecido oito? Não, me disseram que só podiam dar dois. Mas não deram. Me reduziram para um, pela primeira vez num serviço rápido. Novo estrilo, seguido de ameaça de cancelar o serviço. Horas depois uma mocinha de voz inaudível ligou para me dar a alegre notícia de que eu enfim podia usufruir o fabuloso poder de dois megas. Mas uma coisa na Oi me alegrou: não é um hospital.
Conversa exemplar
Atendente da Oi: “É impossível darmos mais de dois megas para o senhor. Problema da distância da sua casa”.
Cliente: “Mas então como por um mês e pouco eu tive quatro megas sem problemas?”.
A: “Isso foi devido a um erro”.
C: “Entendi. Quando funciona, é um erro. Quando deixa de funcionar, é o acerto”.
A: “Não, não, não”.
C: “Então me explique, moça”.
O cliente, modestamente eu, continua esperando.

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