A bancada negra da Câmara Municipal de Porto Alegre, formada por quatro vereadoras e um vereador, foi novamente ameaçada de morte, através de um e-mail dirigido aos endereços institucionais dos parlamentares na tarde de segunda-feira. Utilizando termos racistas, homofóbicos e lesbofóbicos, o autor das ameaças, que se declara morador do Rio de Janeiro, deu detalhes de como iriam ocorrer as mortes. Antes de falar mais sobre o caso, que se constitui em crime inafiançável, declaro minha total solidariedade a estes cinco integrantes desta bancada aguerrida e que não foge à luta.
Pois então, no Brasil desgovernado, fatos lamentáveis de racismo e preconceito ainda acontecem. Todos os dias. Em todos os cantos. Mas não ficarão mais impunes. Cada dia que passa, o ensinamento da filósofa americana Ângela Davis precisa estar mais presente: “numa sociedade racista não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Todos, todas e todes que se empenham em colocar em prática tal pensamento irão cobrar a apuração destes crimes.
Ao destilar um ódio enraizado e nojento, o homem que fez a ameaça dirigiu-se, especialmente às vereadoras Karen Santos (PSOL) e Daiana Santos (PCdoB), mas alertou a vereadora Laura Sito (PT) que ela estava no seu alvo, assim como os outros dois integrantes da bancada negra (Matheus Gomes do PSOL e Bruna Rodrigues do PCdoB), classificados como “macacos comunistas fedorentos”.
Como pode uma pessoa ter tanto rancor assim? Como ignora que está ofendendo e desrespeitando um ser humano que, assim como ele, merece toda a consideração? Como não consegue admirar a superação de uma bancada jovem, inteligente e que arrecadou votos lutando, já na campanha, contra todos os tipos de preconceitos existentes e derrubando as barreiras – ainda muito visíveis – do racismo estrutural?
Na nota divulgada sobre o caso, a bancada negra informa que “irá buscar as providências das instituições na identificação e punição do autor”, e registrou a ocorrência na Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos da Polícia Civil de Porto Alegre. “Não iremos silenciar frente a crimes de ódio que tentam cercear a nossa atividade política”, reforçam os parlamentares no documento.
A vereadora Laura Sito conhece muito bem o caminho até tal Delegacia porque foi mais vezes ao local denunciar casos semelhantes. O vereador Matheus Gomes (PSOL) assinalou que as ameaças de morte e ataques racistas são nomenclaturas já usadas contra outras parlamentares em diferentes ocasiões. E alertou: “Não irão nos intimidar e nem impedir nosso exercício parlamentar. À Polícia Civil pedimos celeridade na investigação e punição aos responsáveis”, avisou em sua conta no twitter.
E lembro aqui da coluna publicada em 18 de novembro do ano passado, com o título de “Eu tenho orgulho do meu voto sem qualificação”, em que comentei o elevado grau de preconceito e racismo de um ex-vereador ao afirmar que os eleitos do PSOL para a Câmara não tinham tradição e pouquíssima qualificação. “Muitos jovens negros, sem nenhuma tradição política, sem nenhuma experiência, sem nenhum trabalho”, enfatizou o ex-vereador que, apesar de ter história na política fez poucos votos ao concorrer à Prefeitura em 2020.
Vamos cada vez mais renovar os nomes na política. Votar em mulheres. Votar em negros e negras porque negro é a raiz da liberdade. Porque acreditamos sim numa sociedade sem racismo, sem preconceito, sem LGBTfobia e sem qualquer forma de discriminação. E seguiremos cobrando punição para aqueles que cometem tais crimes.


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