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Receita de ano novo

Na última coluna deste ano (não comemorem porque ainda não estão livres de mim – é que na quarta-feira da próxima semana já estaremos …

Na última coluna deste ano (não comemorem porque ainda não estão livres de mim – é que na quarta-feira da próxima semana já estaremos em 2012), pretendo inovar completamente. Não vou tornar pública a minha lista de promessas. Não falarei sobre as simpatias que podem ser feitas na virada do ano. Nem sobre a cor de roupa que deve ser usada para a sorte acompanhar qualquer vivente nos 366 dias do ano, que será bissexto, e nasce com um dia a mais do que os anos normais, para que se tenha mais tempo para ser feliz ou infeliz, a escolher. Menos ainda sobre as profecias e teorias de que o mundo terminará em 2012 e devemos correr para praticar boas ou más ações.

Aproveito este espaço apenas para desejar coisas simples e possíveis no ano que começa. Nada de votos mirabolantes ou inviáveis (se bem que casar com o Chico Lindo Buarque de Hollanda me faria muito feliz). E nem de supor que por apresentar um dia a mais, em 2012 poderemos ser mais cruéis e impiedosos. Ou um dia menos gentil e amável. E nada tão improvável como enriquecer na Mega Sena da virada sem nunca ter apostado um numerozinho sequer.

Para vocês, meus leitores fiéis, pego carona no poema “Receita de Ano Novo”, do Carlos Drummond de Andrade, e digo que para ganhar um ano-novo que mereça este nome, vocês têm que fazê-lo novo, porque “é dentro de vocês que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. Então, se vocês não estiverem imbuídos da vontade de mudar o que não está correto, de alterar o que lhes faz sofrer, de reduzir os gastos desnecessários, de cortar as calorias em excesso, não adianta esperar os novos 12 meses com carinho e expectativa. Que nada de diferente vai acontecer, além de virar a folha do calendário e de um ano novo realmente enfadonho, com cara de velho.

Drummond prossegue e alerta que: “não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta”, como eu sempre faço; “não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas”, como eu sempre choro; e “nem parvamente acreditar que por decreto da esperança, a partir de janeiro, as coisas mudem”, como eu sempre penso. Não é pela simples mudança de calendário, de 2011 para 2012, que tudo será claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, “liberdade com cheiro e gosto de pão matinal”, que isto é bom demais, principalmente nas mesas de café no domingo à tarde com a família.

Portanto, leitores e não leitores, para ganhar um belíssimo Ano Novo, cor de arco-íris ou da cor da sua paz (ou a paz que vocês quiserem conservar pra tentar ser feliz), sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido ou talvez sem sentido), um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras (aqui o poeta refere-se às carreiras sem nenhuma segunda intenção), faça, urgentemente, nascê-lo dentro de vocês!

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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