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“O passado não é mais como era antes.” G.K. Chesterton Na vitrina do antiquário, lá estava ela – uma autêntica Royal negra com aparência …

O passado não é mais como era antes.

G.K. Chesterton

Na vitrina do antiquário, lá estava ela – uma autêntica Royal negra com aparência de nunca ter sido usada. Era semelhante às que se viam nos filmes de detetives dos anos 40. E exatamente igual às da redação de um grande jornal de Porto Alegre, onde comecei como estagiário. Na época, novato não tinha mesa e era preciso esperar para “bater à máquina” as matérias. Eu sentava diante da Royal, enfiava uma folha de papel no carretel e encarava o teclado, me sentindo como um verdadeiro jornalista.

***

Eu era jovem, recém saído da faculdade e alimentava sonhos de me tornar um grande repórter, entrevistando pessoas importantes e assinando reportagens para a primeira página. Alguns meses mais tarde, me indicaram uma mesa a um canto da redação. A máquina de escrever não era uma Royal, mas uma simples Underwood, com a fita gasta e sem a campainha de final do cursor. Mas ficava junto a uma janela, de onde se avistava um pedaço do centro do mundo – a Rua da Praia.

Naquele tempo, a redação ficava quase deserta durante o turno da tarde, com apenas o sub-secretário de redação, poucos redatores e novatos como eu, reescrevendo matérias de ontem para a edição do dia seguinte. Os repórteres titulares estavam na rua, em busca de notícias, enquanto os redatores disputavam os telefones de disco, tentando algo que valesse a tinta de impressão. Os aparelhos eram poucos e era preciso paciência para se conseguir fazer contatos com o outro lado da cidade.

De tempos em tempos, dávamos uma espiada para o relógio elétrico de parede, gentileza da Casa Masson. O tempo passava rápido e logo seriam as temíveis 6 horas da tarde, prazo limite para as matérias aterrissarem na mesa do secretário-de-redação. As páginas locais fechavam às 5h, as entrevistas com fotos, até as 7 horas. A primeira e última páginas permaneciam abertas, aguardando uma notícia de última hora – uma entrevista-bomba com um grande político ou a morte de uma estrela do cinema.

Depois das 6, a agitação recomeçava, quando os repórteres de rua voltavam para suas Royal e os teletipos davam início ao seu matraquear, despejando fitas perfuradas, com os boletins de New York. Era hora de traduzir as fitas da Associated Press e United Press que se amontoavam no chão da sala dos teletipos. O sub-secretário não ocultava sua impaciência, enquanto eu resumia as notícias do teletipo. E se animava quando surgia algo que poderia dar manchete – um descarrilamento na Índia, eleições na França ou um terremoto na China. Mandava um dos redatores redigir um texto e o estagiário mais próximo correr até o arquivo fotográfico, em busca de uma foto para completar a matéria. E pronto, a primeira página estava fechada e as máquinas podiam rodar.

***

Certa vez, o editor da página de espetáculos foi se operar de apendicite e me fizeram redator interino das seções de cinema e teatro. Permaneci na mesma mesa de canto, com a velha Underwood, mas já equipada com uma fita nova – obtida por muito favor no almoxarifado. A boa notícia é que então, entrava sem pagar no Theatro São Pedro e nos cinemas da Rua da Praia. Em um sábado à noite, os cartazes do Cinema Central, no Largo dos Medeiros se iluminavam anunciando o avant-premiére de Les Amants, com Jeanne Moreau. A nota que redigi sobre o filme ganhou destaque na página de espetáculos, no mesmo dia em que o filme passou a ser assunto obrigatório nos cafés e nas rodas da Praça da Alfândega.

Nos dias seguintes, a redação foi inundada por dezenas de cartas de leitores, protestando contra a exibição do filme, o que provocou sua retirada de cartaz, apesar das longas filas diante da bilheteria  do Central e pelo Largo dos Medeiros afora. Como eu fora um dos que assistiram ao filme antes da proibição, fui destacado para fazer entrevistas sobre o filme, que era o assunto mais quente na cidade.

Depois de vários contatos, um colega que fazia cobertura na Arquidiocese, marcou uma visita ao secretário do arcebispado. Naquela mesma tarde, subi quase correndo a Rua da Ladeira para minha primeira entrevista importante como jornalista iniciante. No dia seguinte, foi publicada uma extensa matéria sobre o polêmico assunto, incluindo a entrevista com o principal defensor da proibição de Les Amants, o próprio Dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre.

A matéria saiu em cinco colunas na última página, com direito a fotografia do repórter entrevistando o arcebispo. Naqueles dias, entrevistas não eram assinadas, mas os amigos me identificaram na foto. No dia seguinte, as cartas à redação quase duplicaram e as declarações do arcebispo eram comentadas em todas as mesas de bares da cidade. Mas ainda se passaria quase um ano, até que o repórter ganhasse mesa equipada com uma máquina Royal.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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