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Reisadas

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Não tenha medo, tenha esperança, 

O que passou é água que foi.

Abra a porta, é noite da criança,

Abra a porta para Melchior, Gaspar e Baltazar.” 

(Antiga cantiga do Dia de Reis).

A imponente Catedral de Köln, na Alemanha, guarda um dos mais importantes relicários da Cristandade. É uma imponente urna de ouro, coberta de pedras preciosas, que a tradição diz conter os restos mortais dos três Magos que prestaram tributo ao Menino Jesus em Belém. As relíquias teriam sido descobertas no século IV, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Da Pérsia foram levadas para a igreja de Santa Sofia em Constantinopla e, mais tarde, transferidas para Milão. 

As andanças dos três Reis se encerrariam em 1164, quando Frederico Barba Roxa saqueia Milão e transfere as relíquias para Köln. A partir de então, a intensa romaria de fiéis e peregrinos obriga a primitiva igreja passar por reformas e ampliações, até se transformar na magnífica catedral gótica que conhecemos. E consagrando os Reis Magos como grandes personagens da História cristã.

Ao norte de Portugal, na Espanha e na Galícia, o Dia de Reis é celebrado como um segundo Natal. Tradição milenar, que remonta ao século VIII, quando se consagra a veneração aos sábios do Oriente, que seriam os primeiros seres humanos a celebrar o nascimento do Messias. Pinturas da época, em templos e catacumbas representam os visitantes como figuras nobres, talvez por conta do que diz o Salmo 72:

“Que os reis de Társis e das Ilhas lhe paguem tributos; 

que os reis de Sabah e Sebah lhe ofereçam presentes.”

 

Inicialmente nominados como Gathaspa, Melchior e Bithisarea, chegam ao Ocidente como Gaspar, Melchior e Baltazar. Na Península Ibérica, os ritos ganham cantos e são enriquecidos com iguarias como o Roscón de Reis, um bolo de frutas que recebe uma fava seca em seu interior. Reza  a tradição que aquele que encontrar a fava deve trazer o Bolo de Reis no ano seguinte. 

 

Nas aldeias de Portugal, as pessoas ainda “cantam as janeiras” de porta em porta. No interior da Espanha, as crianças deixavam os sapatos na janela com capim e cenouras para alimentar os camelos dos Magos. Em troca, na manhã seguinte, encontravam doces e o Bolo de Reis. Que na França se chama Galette des Rois, com uma miniatura dos Reis Magos em lugar da fava seca. 

 

O bolo é servido enfeitado com uma coroa de cartão dourado e quem encontrar o brinde, será coroado e deve fazer uma oração invocando os Magos. Consta que esta saudação foi a origem das Reisadas, cantorias que cruzaram o Atlântico e foram consagradas por jograis e payadores.como Autos dos Reis 

 

***

O Roscón de Reis ou Galette des Rois é uma história com muitas estórias. Incontáveis as lendas sobre sua origem, nem todas verossímeis, mas quase sempre saborosas. A mais conhecida diz ser um doce para lembrar os presentes oferecidos ao Menino – a massa dourada e brilhante, é o Ouro, as frutas cristalizadas, a Mirra e seu aroma, ao sair do forno, o Incenso. Já a fava seca é explicada de forma mais fantasiosa. 

 

Conta que os Magos, ao saberem do nascimento do Messias teriam disputado a quem caberia prestar o primeiro tributo. Para encerrar a discussão, um padeiro foi convocado para preparar um bolo de festa. Nele, o astuto padeiro teria escondido uma fava seca. Assim, a quem calhasse a fatia com a fava teria o privilégio de ser o primeiro a prestar homenagem. A lenda termina, dizendo que o bolo foi muito apreciado e a discussão, sanada. No entanto, não informa quem encontrou a fava. 

 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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