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Respeitem as mulheres que resistem na política no Brasil

Por Márcia Martins

A violência política de gênero no Brasil, que aumentou de forma preocupante a partir do golpe de 2016, tem provocado novas vítimas em todos os cantos do País. O mais grave é que os agressores das parlamentares ou ex-parlamentares gozam de uma impunidade assustadora. Talvez isto possa explicar que, ainda em 2021, o Brasil ocupe o 9° lugar entre 11 países da América Latina no item de participação política e a paridade ainda é uma meta distante. As mulheres representam mais de 51,8% da população e mais de 52% do eleitorado, mas são minoria na política brasileira. 

O Rio Grande do Sul mostra-se, especialmente, do início do ano para cá, um cenário propício à violência política contra as mulheres. Além do ataque sem qualquer palavra que possa defini-lo – tamanho a sua monstruosidade – sofrido pela ex-deputada Manuela D’Avila, que recebeu ameaças envolvendo a sua filha de apenas cinco anos, mulheres de diferentes cidades no Estado tornaram-se alvo da inconcebível violência de gênero. Vereadoras do Partido dos Trabalhadores (PT) de Sapiranga, Bagé, São Borja e Caxias do Sul engrossam a lista de parlamentares ameaçadas nos últimos meses. 

Antes, é preciso reforçar que violência política de gênero é todo e qualquer ato que tem a intenção de excluir a mulher do espaço político, impedir ou restringir seu acesso ou até mesmo induzi-la a tomar decisões contrárias à sua vontade, dependendo do grau de ameaças. Estas violências – que precisam com urgência serem repudiadas e denunciadas – costumavam ocorrer no período do processo eleitoral, com as mulheres já eleitas e durante o decorrer do mandato, no caso da Manuela D’Avila ultrapassaram tais fases. No momento, Manuela não ocupa cargo político, mas a sua capacidade eleitoral não é ignorada. 

Na segunda-feira, em reunião virtual convocada pela Força-Tarefa de Combate aos Feminicídios no Estado, que é vinculada à Comissão de Segurança e Serviços Públicos da Assembleia Legislativa, em parceria com o Gabinete da deputada federal Maria do Rosário e do senador Paulo Paim, foram ouvidos relatos de ameaças de intimidação e morte. Se não tivesse presenciado as denúncias das vereadoras Rita Della Giustina (Sapiranga), Caren Castencio (Bagé), Lins Robalo (São Borja) e Denise Pessoa (Caxias do Sul), juro que podia pensar que não estamos em junho de 2021 e sim nos tempos das cavernas. 

Se a atuação de uma mulher no espaço político para o qual ela foi legitimamente eleita chega a perturbar tanto seus colegas homens no parlamento a ponto de sentirem-se no direito de protagonizarem atos de violência política, não seria mais natural que eles se esforçassem para melhorar seu desempenho? Pelo menos em nome da democracia que todos enchem a boca para defender, quando lhes convém. 

Toda vez que sei de tais ameaças, agressões verbais e atos que caracterizam a violência política de gênero, lembro do último discurso na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro da Marielle Franco, assassinada em março de 2018. Ela disse: “não serei interrompida, não aturo interrupção dos vereadores dessa casa e não vou aturar o cidadão que veio aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita”.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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