Ela não está de bom humor. Quando detona um livro e um filme, há um problema. Dela ou do conjunto da obra. Deve ter sido por isso que o Santoro recusou o papel e Gael, bobinho, pensou que estaria fazendo um filme que marcaria sua passagem de volta a Tijuana. Passará batido.
O filme tem mais furos do que se poderia descobrir em uma sessão. É preciso ver duas vezes.
Tem gente dizendo que não gostou. Tem gente dizendo que traz ares de Truffaut. Na dúvida, uma conclusão: um filme misógino, porém, mal costurado. Uma história bem contada deve ser, necessariamente, verídica. Queremos ser arrebatados. O argumento – duelos pesados e emocionais na atmosfera de Buenos Aires – merecia ser mais tocante. O cinema argentino prova isto. Babenco babou.
Atenuante que absolve: no papel de Sofia, Analía Couceyro é maravilhosa. Nos convence de que a loucura é tão verdadeira que está disposta a brotar facilmente como sarampo em criança em qualquer mulher leve, amorosa e saudável, transformando-a em louca, destemperada e instável. De dar medo.
Fu Lana definitivamente não está de bom humor. No entanto, alguns de seus amigos que viram problemas no filme balançaram após a leitura da crítica positiva, fazendo com que duvidassem da própria capacidade. É um filme polêmico. E toda a unanimidade é burra. Fu Lana também embatucou. Teria sido ela negligente no cinema? Por que teria sentido como se estivesse assistindo a uma chanchada brasileira? Talvez porque o filme traz algo de exagerado: mulheres nuas, em seqüências desnecessárias e excessivas, obnubiladas mentais que tratam o pobre Rímini tal um objeto de gozo rápido e descartável. A mudança de personalidade, de construção emocional de cada personagem é muito rápida. O resultado não envolve, não seduz. A fotografia, as cores, tudo acontece na espera de um mergulho que faltou.
Talvez Fu Lana tenha algum desgosto na vida. Quem sabe, gostaria que Gael tivesse ao menos tirado a roupa, mesmo de costas.
Foi ao livro. Descobriria, afinal, por que não gostara do filme. Logo de início, apaixonou-se por O Passado, de Alan Pauls. A começar pelo design: capa dura, coberta de relíquias domésticas em um papel rústico, que se agarra aos dedos. Relíquias envelhecidas cujo conteúdo emocional traz memórias que só fazem sentido quando seu conteúdo ainda está vivo, como diz no próprio livro. Os primeiros capítulos fazem sentir finalmente qual é o caminho interno de Rímini, desassociado no filme, talvez pela falta de empenho de Gael, pois este personagem é para lá de complexo: de dependente a rebelde, de viciado a consciente, de perdido a remediado.
Ouvem-se, na leitura, os pensamentos de um menino que sempre viveu com a mesma primeira amiga, namorada e esposa e, no livro, podemos perceber o que falta. No entanto, suas expressões não traduzem a narração descritiva dos sentimentos trabalhados no livro. Um filme intimista deve ter, com certeza, mais força. Fica difícil descobrir profundidade naquela cara bonita. E seria mesmo difícil representar tantas reviravoltas de um marido, ex-amigo de infância, carente e cocainômano, que transforma-se em desesperado e perdido, anti-social, e, depois, em um sarado e comedor professor de aeróbica (que no livro é um professor de tênis). Uma epopéia de personalidades que o ator cruza entre meias sílabas com direito a choro convulsivo.
O roteiro, baseado no livro, não completou os espaços entre tantas mudanças e guinadas. Para dizer a verdade, nem no livro se consegue unir estas diferentes facetas da vida de Rímini, e o texto, também no papel, acaba por se tornar uma peça sórdida e de mau gosto. E, cá pra nós, os atalhos que adotou Babenco são de uma fragilidade aparente.
Puritana, Fu Lana? Está longe. Mas ela está, realmente e conclusivamente, de péssimo humor.
P.S.: Qualquer crítica não terá a menor importância, pois por si mesma não vale nada em relação ao trabalho a que se refere. Extrato de um desenho animado muito simpático (Ratatoille), redimindo o crítico de ser o vilão da história.

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