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Roteiro de um flâneur-gourmet

“O flâneur é um príncipe disfarçado quecolhe prazeres em todos os lugares”. (Charles Baudelaire) O jornalista e escritor norte-americano A. J. Liebling era careca, …

O flâneur é um príncipe disfarçado que

colhe prazeres em todos os lugares”.

(Charles Baudelaire)

O jornalista e escritor norte-americano A. J. Liebling era careca, gordo e um grande glutão. Ficou conhecido pelas crônicas que escrevia para The New Yorker, sobre a Paris do entre-guerras. Mesmo com dificuldade de caminhar, era um infatigável flâneur perambulando pelas ruas de Paris nas décadas de 30 e 40. Ele se auto-denominava um flâneur-gourmet, aquele que gosta de alternar a fruição por ruas, praças e paisagens com frequentes paradas em fromageries, boulangeries e patîsseries. Nas feiras de rua, ele se detinha a cheirar ervas e provar temperos. Nos bistrôts do caminho, insistia em conhecer o chef e sua história.

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Se A. J. Liebling estivesse vivo e retornasse a Paris, podemos imaginar o roteiro que faria como um flâneur-gourmet moderno.  Talvez iniciasse sua andança pelo Marais, vagando com tempo e calma pelas ruas de Montmartre até o seu quartier de predileção, Saint-Germain-des-Prés. Ali, entre uma parada para um brie, uma baquette e um rouge, procuraria pelos vestígios de glutões como Marcel Proust, Josephine Baker, Pablo Picasso, Oscar Wilde e Jorge Luis Borges. E, quando chegasse ao nº 105 do Boulevard du Montparnasse, faria a primeira parada. Ali, no mítico La Rotonde, sentaria à mesma mesa onde Amadeo Modigliani e Henri Matisse jantavam juntos e, às vezes, pagavam a conta com desenhos feitos em guardanapos. E talvez repetisse o mesmo pedido: Magret de Canard rôti avec figues e Oefs à Crème de Cèpes.

Liebling recordaria que foi no La Rotonde que o fotógrafo surrealista Man Ray conheceu a notória Kiki de Montparnasse e onde Charles Chaplin e Mary Pickford anunciaram a criação da United Artists.

Seguindo em frente, o cronista desceria o Boulevard Saint-Germain até a Rue de l’Ancienne Comédie. No nº 13, diante das portas escarlates do venerável Le Procope, lembraria que aquele foi o primeiro café da França, fundado em 1686. Em seus salões, jantaram Honoré de Balzac, La Fontaine, Victor Hugo, Molière e Racine. E consta que Benjamin Franklin escreveu ali a redação da Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Não se conhecem as preferências gastronômicas de tanta gente ilustre, mas, depois de 200 anos, alguns dos pratos continuam no cardápio, como o Gratinée de l’Oignon à Odeon e a Tête de Veau  en Cocotte.

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Mais adiante, no número 115, o incansável A. J. Liebling entraria     na centenária Lipp – que há muito deixou de ser uma brasserie alsacienne para se tornar referência de visitantes e turistas. Mas o cronista escreve que nem sempre foi assim, lembrando que Marcel Proust tomava cerveja em canecas e Antoine de Saint-Exupéry, muitas taças de Krug. Mais tarde, seria a vez de Ernest Hemingway saborear suas Pommes à l’huile, enquanto escrevia relatos de guerra. Um dos pratos mais solicitados da casa ainda é o Pied de Porc Farci Grillé, que consta como preferido de famosos como Simone Signoret, Michèle Morgan, Yves Montand, Charles Trenet e Marcel Camus.

A próxima parada do flâneur-gourmet poderia ser a La Closerie des Lilas, no Boulevard du Montparnasse. Incontáveis personagens frequentaram sua varanda florida. Ali, Paul Fort jogou xadrez com Lenin e Ernest Hemingway e rascunhou as primeiras páginas de O Sol Também se Levanta. Entre as mesas do Clos, circularam Paul Cézanne e Salvador Dali, Théophile Gautier e Andre Gide e o poeta Paul Verlaine.

Na Rive Gauche, outra rua emblemática espera o flâneur que gosta de comer – a Rue Mouffetard, no encontro do Quartier Latin com o Jardin des Plantes.

É um caminho de sabores e aromas, pontilhado por lojas de comida, cafés, bistrôts indianos, coreanos e vietnamitas. Nas calçadas, produtos frescos, como peixes, ostras, aves e carnes de coelho e javali. Nas barracas, patos, codornas e perdizes são apresentados inteiros, para que o comprador possa identificar a espécie. Ao longo da rua, iguarias gastronômicas de todos os lugares da França: Fleur du Sel de Guérande, Foie Gras do Périgord, frangos de Bresse, trutas da Normandia, embutidos da Alsácia…

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Com o apetite estimulado pelas delícias da Rue Mouffetard, o jornalista e escritor descobre, ao lado de um velho casarão, um minúsculo restaurante. Na porta, uma lousa com os plats du jour, preparados com ingredientes comprados na feira da esquina.

Ele pede como entrada uma Salade de Champignons Sauvages, com funcho e douradas fatias de baguette. Depois, saboreia uma Galette avec Pâte à blinis, seguido de um sorbet caseiro de limão siciliano. O vin de la maison, sem rótulo, bem que poderia passar por um bourgogne.

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Mais tarde, o saciado flâneur-gourmet percebe que, encantado com o almoço, esquecera de anotar o endereço do lugar. Lembra apenas que ficava no nº 234, em um cour próximo à Rue Mouffetard. Mas ele nunca mais voltaria àquele bistrôt.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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