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Sangue, oba!

Ela tinha certeza de que ia se arrepender. Nas poltronas, cabeças brancas, rabos de cavalo e bonés. Muitos bonés. Antes de entrar, dois brigadianos …

Ela tinha certeza de que ia se arrepender. Nas poltronas, cabeças brancas, rabos de cavalo e bonés. Muitos bonés. Antes de entrar, dois brigadianos atracaram um afro-brasileiro. Tá certo que ele estava com as cuecas de fora, sem camisa e gritava para os passantes, mas a gente sempre fica com a impressão de que o atraque foi decidido pela cor do cidadão. Na tela, o apelo era sangue de plástico, lutar e matar. Nada de clemência, nada de sentir dor. Afinal, estávamos em Esparta. No cinema e na vida real.

O grão da superfície do filme 300 é hiperestourado e isso dá conta da sensibilidade do trabalho. Há um esforço racional para explicar o que pode ser cólera, crueldade e violência pasteurizada quadro a quadro. A tensão é permanente e inversamente proporcional à saturação das cores. Os dedos de Fu Lana cravavam na cadeira.

A lenta movimentação das cenas contrasta com a extrema força física exercida pelos personagens. A ação e a tensão foram congeladas. As imagens, quase paradas, surgiram dos storyboards, das histórias em quadrinhos, que inspiraram o diretor.  O lema desumano costura esse quadro: a batalha só acaba com a morte. E Fu Lana só sai do cinema quando acabar o filme. Uma luta justa. 

Crianças de Esparta, se homens, merecem beijos dos pais somente até os sete anos. Depois disso, a disputa é feita na arena. Muito tapa na orelha. Como gente grande. Tudo por Esparta, que descarta os fracos. Absoluta semelhança com a nossa ordem do dia, aliás.

A cidade se assemelha a um spa masculino. Ali, os homens são mais lindos, todos com barriguinhas-tanquinhos. (A propósito, Fu Lana descobriu tratar-se de uma expressão que remete às tábuas de lavar roupas e não às trilhas deixadas por tanques de guerra, como parecia à nossa bélica heroína).

Nunca havia visto guerreiros com dentes tão brancos. Aliás, nunca vira guerreiros tão carismáticos, piadísticos e tão positivos. Cortavam as cabeças, os braços e as pernas dos adversários e depois riam de piadinhas em meio a uma chuva de flechas: “Combateremos à sombra”, ha-ha-ha. Os personagens de histórias em quadrinhos nem sempre são politicamente corretos mas serão sempre os mais charmosos. Um anticharme compõe as antifiguras que fazem a maioria em 300. Porém, em uma paródia de mau gosto, eles fariam vinhetas de creme dental.

Claro que ela queria ver Rodrigo Santoro. Até porque leu na Rolling Stones que ele contracenou com fitas-crepe, coladas no chão do estúdio para que parecesse ter três metros de altura. Xerxes nem parecia ser tão alto. Fu Lana foi checar se a emoção das cenas traduzia bem aquele desafio. No entanto, a aparição de nosso ator brasileiro é absolutamente gay naquele paraíso masculino. Nada a favor ou contra as escolhas sexuais, mas Xerxes parecia muito frágil, e não aquele homem monstruoso e cruel que deveria representar um imperador sanguinário.

O personagem Xerxes, dos quadrinhos e da História, nos passa uma repugnância que Santoro não consegue materializar, mesmo paramentado e hipermaquiado. Quando ele põe as mãos enormes nos ombros de Leônidas para alertá-lo que todos temem algo mais do que seu imenso poder, a platéia se desconcentra e grita, sem combinação prévia: hummmm, que mêda, santa! O ator traz os trejeitos do personagem travesti de presídio masculino: uma coisa híbrida, sem sexo, e que não assusta ninguém. O personagem Leônidas até comenta: agora entendo por que ficas sempre entre os homens, em batalhas intermináveis…

Fu Lana preferia ter encontrado um super Xerxes, que indignasse sem causar piadinhas infames. Mas quem é ela para comentar? Apenas uma cabeça entre as zilhares que permanecem grudadas ao pescoço.

Na telona, as batalhas de 300 se assemelham à evolução de uma escola de samba. Por eles serem 300 guerreiros, que escolheram uma parte estreita entre as rochas para enfrentar um grupo reduzido de adversários a cada vez, todos os grupos vão se apresentando paramentados como em alas: os mascarados (que sem as máscaras são mais feios ainda), os com turbantes (nada contra os muçulmanos?), os deformados e embrutecidos (só os guerreiros de Esparta são assassinos em defesa própria).

Os animais utilizados no filme lembram, em menor número, a saga do anel. Não surpreenderam em nada quando foram mortos por simples golpes de lanças atiradas pelos excelentes espartanos. Era uma lançada e caíam os bicharrões um a um, apesar das couraças e de fortes aparatos de defesa.

O sangue segue jorrando em câmera lenta. Enquanto, lentamente, gira uma cabeça decepada, uma perna voa para o outro lado. Tudo vagarosamente para gente não perder a conformação do osso onde a parte deveria estar unida ao corpo. Apesar de ser um sangue de faz-de-conta, meio marrom, grosso e sintético, é impossível sair do cinema e pedir um bife mal passado. Bom para se fazer regime.

Ela tinha certeza de que ia se arrepender. De ter nascido. Mas Fu Lana é assim. Gostou mesmo foi das vinhetas do final da fita, que traziam os desenhos originais dos quadrinhos, em silhuetas manipuladas digitalmente. Cortou do caderninho lutas e guerras por um bom tempo, enquanto puder controlar a sua curiosidade e aversão a qualquer frase de efeito do tipo: aproveitem o café da manhã, pois hoje vamos jantar no inferno.

Autor

Clo Barcellos

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