Muitos dos que acompanham, porque têm gosto refinado ou apenas para criticar depois, os meus desabafos aqui nas colunas do portal coletiva, devem pensar que sou um ser amargurado com a idade e que volta e meia recorro ao passado para exemplificar períodos melhores. Aproveito este momento ímpar de troca de idade – sim, faço aniversário no dia 9, próximo sábado, e como geminiana autêntica, reitero que adoro muito ser paparicada (fica a dica) – para desfazer qualquer equívoco que eu possa ter plantado de apego ao que já foi. Sou uma pessoa completamente apaixonada pelo passado, pelo meu presente e pelo que terei de futuro.
E esta paixão confessa tem sido o meu fermento de vida desde que nasci, há alguns belos anos do século passado. Porque amei cada minuto que vivi intensamente ou ainda que timidamente. Apreciei cada vez que precisei recomeçar e todas as vezes que cheguei ao fim sem necessitar de um novo início. Admirei toda minha história que exigiu coragem e também aquela que me deixou enfraquecida. Aprendi com os erros, mas também me aliei aos acertos para outras empreitadas. Fui ingênua, ousada, santa e vadia. Dependia sempre da ocasião. Fui menina, jovem, mulher e idosa, conforme a intensidade do sentimento. Fui instável e muitas vezes fiz surgir várias, como uma legítima geminiana.
Todos os meus envolvimentos, sejam com amores, amigos ou colegas, sempre foram produtivos. Jamais entrei em qualquer um deles com expectativas inviáveis ou acima da minha capacidade de doação e quando o fim ou o afastamento, no caso de amigos, era fatal, levava a certeza de que recomeçaria uma nova etapa enriquecida e fortalecida com tudo que eu havia conhecido do interior de outra pessoa. Apesar de parecer, hoje, resolvida nestes rompimentos, acumulei cicatrizes nem sempre bem costuradas com o tempo e, por isso, podem expelir sinais de retrocesso. Nada, porém que um bom curativo, um analgésico ou um gole de vinho não possam atenuar.
Do presente recente, trago saudades incuráveis (com certeza). Do meu irmão Dédi que se foi tão cedo. Da minha mãe Mirthô, que foi sempre uma guerreira e resolveu que iria partir em julho do ano passado. Que brotam em lágrimas diárias e disto eu não consigo fugir. De um mais próximo presente, carrego doses generosas de coragem e valentia para superar reveses de doença. Que me exigem tomar pílulas de cores variadas. E de um cotidiano ainda mais presente, tenho a espetacular companhia da minha filha Gabriela, com seu humor, sua beleza, sua inteligência, seu amor e seu afeto. Só ouvir o respirar de minha filha, saber de seus passos, dividir suas alegrias, já valem todo o tempo vivido.
O passado e o presente têm páginas da minha história recheadas de paixão. Os dois produzem momentos singulares de encantamento. O ontem e o hoje fazem germinar toda a forma de amor, de ternura e de erros e acertos que povoam a memória e a rotina atual. E pobre daquele que não tem passado e esconde o seu presente.
Como já disse o grande poeta Vinícius de Moraes (Vininha velho), são demais os perigos desta vida para quem tem paixão. Então, ainda encostada na desculpa de que posso tudo porque estou de aniversário (vocês entenderam esta parte ou preciso desenhar?), digo que tenho um carinho imensurável pelo que me promete o dia de amanhã. Afirmo que acordo sempre cheia de bons pressentimentos com as esperanças do futuro. E enfrento todo novo dia com a certeza de que terei o melhor que me foi reservado. E deito com a confiança de que sonharei sempre com um futuro melhor para mim e para todos.

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