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Sarna para me coçar

Diz a sabedoria popular que o cão é o melhor amigo do homem. O motivo de tão devotado relacionamento canino versus humano, na minha …

Diz a sabedoria popular que o cão é o melhor amigo do homem. O motivo de tão devotado relacionamento canino versus humano, na minha modesta análise, era o fato de o cachorro não falar, apenas emitir sons, e seria, por isso, o melhor ouvinte para o desabafo de nossos problemas. Nada melhor do que aquele amigo que escuta sem interromper e, logo, sem avisar que estamos colocando os pés pelas mãos, torna-se o mais fiel companheiro. Nos últimos anos, a sabedoria desta que vos escreve (baita pretensão), revogou a minha tese original sobre esta estranha simbiose entre cães e humanos.

Depois de conviver nos últimos quase três anos com raças diferentes e apaixonantes de cachorros, proclamo a mais nova e revolucionária teoria. Os cães são sim os melhores amigos dos homens porque estão sempre dispostos a doar, e sem exigir nada em troca, carinhos de todos os tipos. Ao contrário dos seres ditos racionais, os caninos oferecem afetos sem nenhuma intenção escondida no gesto. E são capazes de abandonar a mais confortável posição de sossego ao simples barulhinho de um “psiu” sem nenhum compromisso.

Os cães demonstram da forma mais pública e universal que gostam de seus donos. É só passar algumas horas fora do meu apartamento canino que ouço os latidos eufóricos do meu trio de cães assim que coloco o pé fora do elevador, ainda distante da porta de entrada. É só ficar uns minutinhos fora para tratar dos assuntos chatos na rua que o meu trio de cães quase me derruba no retorno como que a me saudar. E nada melhor para o dia começar iluminado e disposto do que os pulos e manifestações de felicidade do meu trio de cães quando eu acordo.

Claro que adotar cães, em qualquer lugar, exige responsabilidades que nem sempre todos estão dispostos a assumir. Os planos de férias precisam estar relacionados à grana extra para deixar os bichinhos em um bom e recomendado hotel. Os finais de semana no campo ou na praia devem obedecer a uma escala na família, a fim de que os animais não fiquem sozinhos. Os gastos que se somam com vacinas, banhos e veterinários. Sem falar no constrangimento das visitas ante a euforia receptiva dos meus cães.

Muitas vezes, minha filha Gabriela vem me informar que uma agenda nossa irá se encontrar. Nada muito longo, um período de uma tarde. E eu imediatamente indago: “mas quem ficará com os guris”? No caso, o Dalai, o mais velho, da raça shih tzu; o Gandhi, o do meio, da infernal raça Cocker; e o Ravi, o caçula, da maravilhosa e surpreendente raça Streeg Dogs. Sou daquelas radicais que não entende porque se abriga qualquer animal se não é para cuidá-lo dia e noite.

Mas como quem tem amigo cachorro quer sarna para se coçar, estou há uma semana sem um local confortável para sentar na sala. Devido aos ataques noturnos de afeto e carinho desmedido dos menores Gandhi e Ravi ao sofá, tive que mandar forrá-lo junto com um pufe antigo de outras residências. Fazer o quê? Nem tudo pode ser perfeito.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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