Às vezes, a gente acorda com uma dor infame de tanta saudade. Às vezes, a gente vai dormir com uma dor insuportável que apunhala e afugenta o sono chamada saudade. Outras vezes, sem mais nem menos, a gente desperta no meio da madrugada com a respiração trancada, e não consegue mais pegar no sono atormentada de tanta saudade. Tudo é motivo para alimentar e fazer renascer a saudade, que arrisco dizer que nunca nos abandona. Apenas nos permite instantes de folga, minutos de férias. Pois, desde o início deste ano, que estou adoentada. E não há remédio conhecido e de eficácia para curar esta saudade que me invade desde os primeiros dias e noites de 2014.
É uma saudade que aperta o coração e provoca lágrimas ao olhar álbuns de retrato com fotos de familiares que já não estão mais conosco. Do tempo em que as fotos não eram só digitais. Apaixonada pelo hobby de fotografar e retratar momentos, devo ter mais de 20 destes álbuns. Com todas as fases de minha vida. E dos sobrinhos mais antigos (batizados, festas na escola, praia). E da minha filha Gabriela. De todos os jeitos e maneiras. Todas lindas. No nascimento no Hospital Mãe de Deus, no berço, no cercadinho, na creche, com o Papai Noel, na praia, nas formaturas. Saudade deste tempo da infância da minha filha.
Como se o meu baú de fotos já não fosse o suficiente para fazer renascer a saudade, herdei de minha mãe fotos do seu acervo pessoal. Retratos da infância, da adolescência, documentos de épocas, de nascimentos dos manos e da mana, de alguns Natais na casa da minha madrinha com toda a família reunida, de aniversários, de momentos na Rua Thomas Flores ou na Fernandes Vieira. As fotos da coleção de minha mãe, que quando estavam com ela, eram todas guardadas em caixas de papelão, hoje ocupam folhas amareladas dos meus álbuns e deixam os meus dias e noites cheias de melancolia.
Não são só as fotografias que me enchem de uma saudade que não cura e nem cicatriza nunca. Os livros armazenados e empoeirados que ocupam espaços generosos na estante da sala me convidam a percorrer fases diferentes da minha rotina estudantil e profissional. E ao folhear aqueles que mais gosto e reler pequenos trechos já antes sublinhados com caneta marca texto, é como se revivesse cada momento já passado. O vestibular, dias da faculdade, o primeiro emprego, as passeatas, os comícios, as campanhas eleitorais. Tudo espelhado nos livros da estante e na saudade que se solta da poeira acumulada.
O fato de sentir saudade de tanta vida já passada não significa nenhum tipo de desconforto com a minha existência atual. Não sou ressentida com nada e nem mesmo acho que poderia ter feito algo melhor. Tudo está no ritmo aceitável. Mas, a saudade continua. É um sentimento que só cresce, se aloja insistentemente em meus momentos, encontra recantos aconchegantes nos meus pensamentos. E, preciso confessar: tenho saudade de um tempo em que eu não tinha todo o dia e noite esta saudade indescritível.

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