Nestas noites mais frias de maio, carrego dores de saudades. O sentimento, por vezes em doses alarmantes, dorme e amanhece comigo. Acompanha-me nos sonhos e invade, sem convite, os pesadelos. Inquieta, acordo na madrugada, vou ao banheiro, bebo água, viro de lado. Os movimentos feitos na tentativa de expulsar tal hóspede não desejada não alcançam o objetivo. No retorno para o quarto, mal o sono é retomado e a saudade me assalta de novo. É uma saudade de tudo. Sem preferências. Sem escolha de personagens. Sem início, meio e fim. A única certeza é o tempo. Sinto saudade do ontem, do passado, do que foi, do que eu imagino que poderia ter sido. Assim, quase uma melancolia.
Às vezes, é uma saudade apertada da infância. Das coisas boas daquele tempo sem horário. Das travessuras sem nenhuma maldade. Da peraltice que permitia subir em árvores e pular muros sem o medo do tombo. Das brincadeiras com as amigas da rua e com os manos, quando a minha mãe me deixava cuidando dos guris (vejam que situação) nas tardes durante os dias de semana. Algo que se assemelhava ao descompromisso. Dias e noites sem olhar o relógio e sem nenhuma cobrança. Assim. Apenas a vida pulsando.
Administro, ainda que mal, uma saudade muito bandida dos encontros familiares. Da mesa cheia nos domingos à tarde, o baralho aberto para o jogo, o bolo no forno e um cheiro de café que vinha da cozinha enorme daquele apartamento na Ruas Thomás Flores. Das baladas noturnas do final da adolescência onde a única intenção era dançar, dançar e só dançar. Ninguém cobrava se havia “casado” no festerê. O que valia era saber se já tinha armado uma próxima balada em algum novo final de semana do mês. E no final da festa, o arremate com um bom x burguer em algum trailer nas redondezas. Sem o peso do dia de amanhã. Assim. Apenas a vida pulsando.
E como sentimento chama sentimento, tenho, sempre, uma saudade infinita e muito crescente do meu irmão, que nos deixou, prematuramente, aos 37 anos. Saudade de suas piadas e suas tiradas inteligentes. De seus mimos tão inconsequentes e sem a necessidade de ocasião especial. Da sua eterna preocupação comigo e com a sua afilhada Gabriela. Dos seus telefonemas. Dos seus e-mails diários. De tanto carinho, tanto amor e dedicação. Sem precisar provar nada. Assim. Apenas a vida que pulsava nele.
Saudade de torcer para o domingo chegar logo para comer sorvete de casquinha com duas bolinhas na sorveteria do bairro. De escrever cartas para os amigos contando as novidades. De planejar uns 15 dias de férias na praia sem interrupção para nada. Apenas o ócio contemplativo de nada fazer. Saudade de jogar cinco marias no chão da casa na Rua Doutor Mário Totta, na Cavalhada. De aparecer cada mês na casa com um novo cachorro e ficar com ele até o fim dos dias porque os vizinhos não reclamavam dos seus latidos. De ir tomar chá da tarde nas vizinhas ou simplesmente convidá-las para o mesmo filme na Sessão da Tarde.
E como não consigo dispensar esta emoção que corrói e corrói, hoje senti saudade indescritível de escrever uma coluna sem nenhum compromisso (não que me exijam algum). Um texto não só saudoso e melancólico, mas também um pouco revelador dos meus sentimentos mais profundos e nem sempre tão expostos. Sem analisar o que é ou o que será. Apenas a vida que pulsa.

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