Já faz quase vinte anos.
Pego numa saia-justa acerca de sobras de campanha, da reforma de um jardim e de uma caminhonete, Collor de Mello foi defenestrado da Presidência.
Assumiu seu vice, um político nascido num navio no litoral da Bahia, mas que se diz mineiro e que, em condições normais de temperatura e pressão, jamais teria chegado aonde chegou.
Lembro de uma manchete de capa da Veja nos primórdios de sua gestão: “Início pífio”. Itamar havia formado um gabinete com seus amigos de juventude em Juiz de Fora, cidade da qual fora prefeito.
O período foi marcado por histórias folclóricas: pediu a volta do Fusca e foi atendido; tentou seduzir assessoras; num contra-plongê, foi fotografado ao lado de uma moça sem calcinhas no Sambódromo; teve um ministro que bebia e dava vexame; foram fatos que enriqueceram a história prosaica da política brasileira e as conversas de boteco da época.
Foi foco de todo tipo de deboche.
Hoje, o jeito simples da equipe de Itamar deixa saudade diante da deselegância indiscreta desta gente que hoje ocupa o Planalto.
Se havia um caráter simplório no governo, foi neste ambiente que foi gerado o Plano Real que rompeu a cultura inflacionária e tirou da miséria milhões de brasileiros.
Acima de tudo, no entanto, cabe lembrar Itamar por algo que ele tinha de sobra: a decência.
Entre os amigos de muitos anos que constituíram o governo, destacava-se seu ministro-chefe da Casa Civil, o umbilicalmente ligado a ele, Henrique Hargreaves.
Num determinado momento, surgiram acusações de que o ministro, em nome da Odebrecht (sempre ela), estaria agindo de forma pouco republicana na Comissão de Orçamento do Congresso. O “simplório” Itamar afastou seu amigo de infância e mandou fazer uma investigação de verdade. Mês e meio depois, demonstrada a idoneidade da atividade de Hargreaves, ele foi reconduzido ao cargo.
Nesta semana, soubemos que a laranja da candidata Dilma, aboletada na cadeira da Casa Civil, emprega alguns familiares no governo e outros em empresas que dele se locupletam em operações documentadas de pesado tráfico de influência.
A ministra, cujo horizonte mental não parece passar do céu da boca, enviou notas lacônicas à imprensa, tentando justificar o injustificável.
O presidente da República, maior defensor de corruptos da História do Brasil, enviou o assunto para uma comissão de ética, que, a julgar pelos casos anteriores, é a senha para amaciar a repercussão de roubalheiras de toda ordem.
Finalmente, a candidata Dilma, ex-chefe e parceira da ministra em questão, afirma que este é um assunto do governo. Logo, dentro de sua forma de pensar, nada tem a ver com sua candidatura. Um argumento difícil de sustentar, considerando as imagens e o discurso que ela apresenta em seus programas de TV e rádio.
De todos sai uma outra ladainha: “Estas denúncias são coisas do jogo eleitoral!”. É a tentativa de criar o conceito de janelas no calendário nas quais desvios de recurso que aconteçam sejam enquadrados como “queixa da oposição”: as portas da esperança da corrupção.
Se há um lado bom nisso tudo é a oportunidade que temos de, ainda que de forma tardia, enaltecer um período em que tivemos líderes, aparentemente, retrógrados, mas com os valores que estão em falta hoje.
O segundo turno seria a oportunidade para aprofundar este debate.
Comentando
Verissimo, em sua coluna de hoje, revela insatisfação com certa percepção de Serra acerca de seu pai.
A sorte do candidato é que ele não trabalha na RBS…

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