Saudades nesse caso das salas de cinema. Li a coluna do meu colega Fraga aqui no Coletiva.net, com o ótimo nome de Streaming, seu safado. Recomendo a leitura a quem não fez ainda.
Aí não teve jeito, até porque tento seguir o mesmo caminho. Até vejo alguns filmes (séries quase nenhuma), mas é difícil. E no meu caso, não porque eu ache que os filmes do streaming tenham qualidade inferior (até porque em grande parte são filmes da telona), mas porque são coisas diferentes. Experiências diferentes, planetas em outra galáxia. Isso quer dizer que um é melhor ou pior? Aí vai do gosto e até da história de cada um. Gosto de ver filmes em algum streaming. Por exemplo, vejo sempre (que aliás, está em uma edição especial em julho) o Myfrenchfilmfestival.com, que é somente online.
Agora, o mergulho em uma sala de cinema é uma experiência inesquecível. Incomparável, para mim. Porque sou do tempo que o que tinha era um pipoqueiro (literalmente, com a sua carrocinha) dentro do cinema Baltimore, vendia em saquinhos de papel de seda, que ficavam engordurados, do lançamento da bala Azedinha. Mas principalmente isso, cinemas que não tinham inclinação. Então, se alguma pessoa mais alta ou com o cabelo grande se sentasse à frente, ia ter que ver o filme se esgueirando pra enxergar.
Outra experiência que vivi muito foi o projetor parar de rodar e a película queimar, vermos o fenômeno na telona acontecendo e o técnico se desesperando para cortar, emendar e projetar. A parte perdida tínhamos que supor o que tinha acontecido.
Vi filmes fantásticos. Mas acima de tudo, entrar numa sala de cinema, com a tela, o som, sem celular (mesmo antes da pandemia, se desligava ou colocava no silencioso), ir ao banheiro só em ultimíssimo caso, sem interrupções. Estar lá, dentro do filme, sentindo emoções únicas, ouvindo trilhas ou sons incomparavelmente de qualidade e até volume melhores, é uma nave que produz, como disse Julio Cortázar numa entrevista, uma fissura no tempo, em que esse para. Uma cápsula do tempo.
Afora, como eu já disse em outras colunas, o espresso antes, na expectativa do filme, outro depois, ou um jantar, para falar dele. Meu colega Fraga acha que os cinemas se transformarão (ao menos na maioria) em outros estabelecimentos. Já eu sou da turma dos que acha que não. Que resistirão, como muitos heróis em filmes de ação, bravamente a tudo que está acontecendo. E que quando as pessoas estiverem vacinadas, as variantes mais controladas, voltarão com ainda mais energia.
E assim como fiz e faço em filmes, seja no streaming ou cinema, sigo torcendo pela força do cinema que para mim, aí sim digo: cinema, seu safado, fazendo uma brincadeira com meu colega colunista.
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