“Caminhar pelas ruas de Paris preserva nossa alma.” (Victor Hugo)
O autor de “Les Misérables” sabia como desfrutar dos prazeres de flanar em Paris, enquanto perscrustava vielas, praças e quartiers em busca de mistérios e lendas. Um visitante distraído (e mesmo o parisiense apressado) passa por placas comemorativas e pisa em marcos de bronze, que são mapas de tesouros de cultura e de história. Como uma “vieille dame”, a cidade reserva seus encantos mais preciosos para o viajante atento e para o flaneur ávido por descobertas.
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Um passeio pelo Boulevard du Quatorze Juillet conduz a uma data carregada de significados para a França: o 14 de julho de 1789, dia do assalto popular à Bastilha. Mais adiante, a placa azul e branco na esquina da Place de Six Juin recorda outro dia histórico em 1944 – o desembarque na Normandia, que mudou o destino da guerra na Europa. Não muito longe, no mesmo quartier, a queda de Napoleão III está registrada na rue du Quatre Septembre. Algumas paradas do metrô nos levam aos tempos da Paris medieval – uma placa Rue des Juifs marca o local que dava entrada ao bairro judeu da cidade.
E a viagem continua – no caminho, sinais nos falam de notáveis da ciência, poesia, literatura ou música que viveram nessas ruas e vielas. Pela rue Pierre e Marie Curie, alcançamos o Quai Voltaire, depois a rue de Wagner. Com atenção, lemos o marco que indica onde o maquis Jean Moulin foi martirizado pela Gestapo.
Uma caminhada mais demorada conduz até a rue des Grands Augustines, na Rive Gauche. No nº 7, num prédio do século XV, Pablo Picasso morou entre 1936 e 1955. Aqui, em 1937, ele pintou sua obra-prima, Guernica, que denuncia as atrocidades da Guerra Civil da Espanha. Contam as lendas que, durante a ocupação, um alto oficial alemão foi vistoriar seu estúdio. Ao ver um esboço do mural, perguntou a Picasso:
“- O senhor fez isto?”
A resposta soou como uma chicotada:
“- Não, vocês fizeram”.
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Na rue Monsieur le Prince, passamos diante do nº 10, a casa onde Augusto Comte morou por toda sua vida. Esta é uma das ruas do Quartier Latin que escondem segredos, estórias e até surpresas insólitas. No século XV, era parte das muralhas da cidade e seu antigo nome era rue des Fossés. Em 1612, um certo Príncipe de Condé mandou construir sua casa sobre o fosso das muralhas. Era conhecido como Monsieur le Prince e quando o caminho para sua casa virou rua, ela foi batizada com seu nome.
Atualmente, aloja butiques de prét-a-porter, uma cave que vende vinhos e frutas, umartisan-relieur, M. Lambert Barnet, cuja placa informa que ali se encadernam livros desde 1830. Por perto, outras veneráveis relíquias, como a Crémerie-Restaurant Polidor, no nº 41, um dos mais antigos restaurantes de Paris. Foi fundado em 1845 e dizem ter sido frequentado por artistas e poetas, como André Gide, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, James Joyce e René Clair.
Mas nem tudo na antiga rue des Fossés se revela ao primeiro olhar. Como o grande portal, com cariátides de mármore, que seriam do século XVIII. Acima da pesada porta de carvalho, há um balcão de ferro forjado, com uma janela sempre fechada. Ao lado da porta, duas vigias redondas, altas demais para revelar o interior.
No outro lado da rua, o dono do Tabac de France diz que o portal era parte das antigas muralhas. “Mas quem mora do outro lado daquela porta de carvalho?”. Ele ergue os ombros e diz que não tem tempo para cuidar dos vizinhos.
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O visitante que pretenda decifrar sinais e signos terá dificuldades ao se deparar com rue de La Belle Crémieux, Square des Peupliers, rue des Thermopyles ou rue des Mauvais Garçons. Outras nos ajudam a entender a História. Na Place de l’Hôtel de Ville, a placa mantém o antigo nome – Place de Grève, onde, em 1830, a cavalaria dissolveu a golpes de sabre uma passeata de operários. Ou mesmo a história mais remota – a romântica denominação Square du Vert-Galant da praça sob a Pont Neuf, não sugere as execuções que aconteceram ali, como a de Jacques De Molay, o lendário mestre dos templários, levado à fogueira em 1314 por ordem de Felipe o Belo.
Personagens das artes também nos espreitam nas esquinas. A placa no nº 24 do Boulevard des Capucines assinala onde viveu Mistinguett, a grande estrela do Casino de Paris. No nº 9 da rue de lÉcole de Médecine, uma discreta placa indica onde nasceu Sarah Bernardt. Pouco adiante, na mesma rua, o prédio de nº 20 foi sede dos mais célebres momentos da Revolução Francesa. Foi ali que Charlotte Corday assassinou Jean-Paul Marat na banheira.
Uma curiosidade – a placa de mármore que registra o episódio costuma desaparecer tão logo a prefeitura a substitui. Maldição de Marat ou de Charlotte Corday?


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