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Se uma fada fosse mãe

Quando eu era criança, mais ou menos cinco anos, ouvia contar que as cegonhas traziam os bebês para as mamães. Na minha mente inquieta …

Quando eu era criança, mais ou menos cinco anos, ouvia contar que as cegonhas traziam os bebês para as mamães. Na minha mente inquieta de quem vai desbravar o mundo, imaginava como a cegonha que morava não sei onde, escolhia determinada mamãe para ter um nenê. E quem selecionava na tribo das cegonhas, a trabalhadora que faria o serviço. Voar no céu e carregar no bico imenso, protegido por fraldas brancas, o (a) filho (a) da Dona Beltrana. E pensava. “Será que a cegonha avisou que está levando um nenê. E se não tiver ninguém em casa?”

Durante quase um ano, acreditei fielmente na “Fábrica de Nenês”, sempre com capacidade a pleno. Volta e meia mamãe relatava que uma amiga sua tinha recebido a visita da cegonha. E lembrei-me da enorme felicidade da minha família (na época, pai, mãe, irmã e eu), quando alguma trabalhadora da “Fábrica de Nenês” anunciou que deixara na porta da nossa casa um baby do sexo masculino. Fiquei tão entusiasmada com a chegada de um maninho, para brincar comigo, que nem reparei como a barriga de minha mãe desinflou.

Exatamente um ano e quatro dias após a cegonha entregar um bebê do sexo masculino, que já completava 12 meses, notei a ausência súbita de minha mãe. Procurava em todos os cantos do apartamento na Rua Coronel Fernando Machado (rua onde muitos anos mais tarde a cegonha faria a entrega da minha filha). Indagava do seu paradeiro aos familiares. Eles diziam que mamãe estava esperando a cegonha. Olhava dentro dos armários. Mas mamãe tinha engordado tanto em nove meses, especialmente na barriga, que seria impossível escondê-la.

Passados uns quatro dias sem minha mãe, eis que ela entra na sala do apartamento carregando no colo o bebê que fora buscar, porque a cegonha estava cheia de compromissos, não ganhava hora-extra e não poderia fazer entregas a domicílio. Um casal com quatro filhos (duas meninas mais velhas e dois meninos). E um aviso irrevogável de minha mãe. Não queria mais a visita da cegonha

Com a chegada do irmão mais moço, o sumiço temporário de minha mãe, a sua enorme barriga que crescia em nove meses e desaparecia e a “Fábrica de Nenês” ameaçando uma paralisação relâmpago, me deparei com dois momentos inesquecíveis para a minha formação humana. Aos sete anos, depois de ficar noites sem dormir, na janela, esperando ver uma cegonha carregando um nenê no seu bico, descobri a verdade sobre o nascimento dos humanos. Quase na mesma idade, descobri que mesmo criança, já estava preparada emocionalmente para ser mãe.

É que depois das refeições, nem pensar em brinquedos ou desenho animado (se existisse naquela época). Aguardava minha mãe terminar os afazeres domésticos sentada cuidando dos meus irmãos (os meninos), que a minha irmã mais velha era fraquinha e não podia auxiliar. Exausta de lavar pratos, copos e panelas, minha mãe pegava o irmão do meio para fazê-lo dormir e eu embalava o caçula no carrinho. Até hoje não sei se ele dormia encantado com as músicas de ninar que eu cantava ou anestesiado pelos tons desafinados que emitia.

A descoberta de que a cegonha não existia foi difícil de ser assimilada. Mas fundamental para ensinar como é importante se acreditar nas coisas encantadas, num mundo cheio de afeto, em pessoas transbordando de ternura, em situações que moldam seres humanos com defeitos e qualidades. E ajudar minha mãe a cuidar de meu irmão, mostrou que eu estava pronta a abdicar, sempre que necessário, da minha vida em função de um filho. Como há poucos instantes. Tive que atrasar a coluna para ir correndo no colégio resolver um problema da Gabriela Martins Trezzi, minha filha.

Pode até ser que o poema do Coelho Neto, intitulado “Ser Mãe”, emocione muito, especialmente, na última estrofe “Ser mãe é andar chorando num sorriso! Ser mãe é ter um mundo e não ter nada! Ser mãe é padecer num paraíso”. Mas ainda gosto mais da Sylvia Orthof na estrofe “Se a terra fosse mãe, seria mãe das sementes, pois mãe é tudo que abraça, acha graça e ama a gente. Se uma fada fosse mãe, seria a mãe da alegria. Toda mãe é um pouco fada. Nossa mãe fada seria”.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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