Colunas

Seixos & Paradoxos

“O homem baixo perguntou:

– Onde um sábio esconderia um seixo?

O homem alto respondeu sem pensar:

– Na praia.

Um breve silêncio e o homem baixo insistiu:

– E onde ele esconderia uma folha?

O outro respondeu:

– Na floresta.”

 

Com este diálogo em “A Inocência do Padre Brown”, Gilbert K. Chesterton demonstra como paradoxos e inocentes charadas podem ser usados para provar uma tese ou teoria. No caso, para ilustrar a virtude de pensar as coisas simples, característica franciscana do Padre Brown, inspirado em Sherlock Holmes. Este detetive de batina nasce em 1911, o mesmo ano no qual GCK conhece um sacerdote irlandês, John O’Connor, que o aproxima da religião e o conduziria à conversão, alguns anos mais tarde.

***

Durante este período, Gilbert Keith Chesterton produz mais de 50 contos com as peripécias detetivescas do Padre Brown. Ele intitulou seus livros com predicados antagônicos – ou paradoxais? – do personagem, tais como Candor, Sabedoria, Segredo, Inocência, Incredulidade e Escândalo. 

Mas quem seria realmente este padre-detetive? 

No conto de estreia, The Blue Cross, ele é apresentado como baixinho de rosto arredondado, com olhos cinza-claros e cabelos arrepiados. E sempre associado a um velho guarda-chuvas, que carrega a tiracolo, como um Chaplin em férias. Mais tarde, o escritor o redescreveria como “divertido, de rosto afável e com uma expressão de duende”.

Embora marcado por este perfil semi-cômico, o Padre Brown personifica um dos clássicos paradoxos chestertonianos. Ele revisita a mítica figura da Baker Street 221, mas transcende em muito os limites dos heróis da literatura policial. Também despreza os cacoetes e o estilo dos grandes mestres da investigação, que confiam bigodes encerados, consultam as células cinzentas ou vigiam suspeitos enquanto bebem cerveja no bistrô da esquina. Não o Padre Brown. Ele prefere usar a intuição, a lógica das coisas simples e o bom senso para se aprofundar na alma criminosa para entender suas grandezas e fraquezas: 

 

“O criminalista vê o criminoso

como um ser estranho e abjeto.

Eu o vejo como a mim mesmo,

capaz de cometer qualquer barbaridade.

Então me pergunto como eu faria o que ele fez.”

 

***

Em A Falácia do Sucesso, G. K. Chesterton escreve ser óbvio que, em qualquer ocupação perfeitamente honesta – como pedreiro ou escritor de livros – existem apenas duas formas de fazer sucesso: uma é fazendo um bom trabalho e a outra, enganando as pessoas. O mesmo funcionaria com bandidos e criminosos? O Padre Brown acha que sim:

  

“O ato criminoso é uma obra de arte como qualquer outra.

No entanto, os crimes não são as únicas obras de arte

produzidas nas oficinas do inferno. 

E, como qualquer obra, divina ou diabólica,

possui uma assinatura única.”

 ***

 

Autor

Redação Coletiva

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.