Os pecados capitais, antes, muito antes de existir o Cristianismo, eram vícios relacionados, pelo conceitos ocidentais, à condição humana.
Esses vícios, transformados em pecados pela Igreja, são os capitais, aqueles que precisam de absolvição pelo sacramento da confissão e foram, através dos tempos, sendo modificados. Na versão atual, são a Vaidadee, Inveja, Ira, Preguiça, Avareza, Gula e Luxúria.
Como não sou religioso, tenho passe livre para transitar ou não pelos pecados, de acordo com meu código ético e as situações que se me deparam, sem outras considerações.
Certos pecados, como a Luxúria, considero tão desprovidos de senso comum que só não debocho desse pecado (?!) por ter uma amiga que não gosta de ser eu um debochado assumido. Acuso, porém, que toda omissão referente à luxúria é, no mínimo, de uma absoluta falta de imaginação e de requinte. Luxurientos (as) do mundo, eu vos absolvo com louvor por não terem negado à carne o que o desejo implora.
Quanto à Inveja, jamais me incomodaria por Eike Batista, por exemplo, ser um brasileiro entre os dez mais afortunados do mundo, mas se você me disser que está indo para ou está de volta da Europa, situe-se logo como um objeto da minha inveja.
Da Gula, pecado que me levou à obesidade, estou redimido do excesso de peso, mas só não exerço o apetite de sempre por Inveja de quem come muito e não engorda.
Ira: é possível ser brasileiro e não ser atacado por ela? Este império da impunidade que rege os costumes da nação pode passar impune pela ira da cidadania aviltada? Se existem réus confessos do mensalão, por exemplo, como abafar o desejo de morte para quem diz que o mensalão é ficção?
Quanto à Avareza, um mínimo de inteligência torna evidente que o maior prejudicado é o próprio avarento. Este não é um pecado, é uma doença somática que carcome seu portador e, felizmente, não é contagiosa.
A Preguiça, creio eu, deve ser o fato mais frequente na vida das pessoas e todos a conhecem. Creio que só o meu código pessoal de ética me salvou, milhares de vezes, de faltar a um compromisso profissional ou social pelo insistente assédio do não fazer. Por outro lado, pelo menos algumas vezes, fui à forra.
Quinta feira da semana passada, oito horas da manhã, ainda na cama, já havia adiado por algumas vezes a intenção de levantar-me. Pesquisei na agenda mental o compromisso mais próximo e cheguei à feliz conclusão que, pelo menos, pela manhã, só a higiene precisava de mim.
Cumprido o ritual, envolvido ainda pela gratuidade do existir, fui surpreendido pela bela autoproclamação de que estava vivendo um dia da disponibilidade absoluta.
Sem que desse à alegria o batismo de preguiça, abri o jornal e, despido de reações, iniciei a leitura. Terminada a mesma, decidi que aquela preguiça, inda que não programada, merecia, além do desfrute, todos os benefícios de uma avaliação.
Qual o significado da preguiça, além do execício do não fazer? Além do dormir, se for o caso, resta a escolha do não comando, ou seja, só comandar aquilo que é sinônimo de entreter. Música, leitura são formas quase passivas de prazer e, muito mais ainda, se forem comandadas, em estado de preguiça, por quem passou a maior parte da vida tendo que fugir dela.
A preguiça, quando em uso da disponibilidade, é um direito indiscutível, um bônus para quem passou a vida ocupado.
Estimo, cara leitora, ou leitor, que preguiça e disponibilidade se juntem para oferecer a você um antídoto ao estresse, o estraga-prazer da preguiça.
Inté.
Vitrine (sem comentários sobre a coluna anterior).

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