Fu Lana conheceu o Comandante Nascimento. E por ele lamenta. Por todos, aliás, por ela inclusive. A barbárie é regra. Ela já disse isso? Mesmo sem assistir ao filme? Choveu no molhado. Mas o filme é bala. Bomba. Deixa a platéia mudinha, respirando apenas o suficiente para manter os olhos abertos. E a boca, cujo queixo vai caindo em progressão paralela ao desenrolar da trama, termina escancarada, seca. Mãos crispadas. Braços paralisados. No way. Sem saída.
O linguajar do filme, mermão, é vero, ducacete, porrada. Carioca e natural, tal qual um documentário. As cores, estouradas, saturadas, fazem com que a gente entre em uma viagem alucinógina. Em plena realidade, e que é uma viagem sem volta.
E as regras? Que regras? Uma loucura. Se aquilo é o Bope, cruz credo, que policial passe tão longe quanto traficante. E os burguesinhos? Cara! Somos nóis na fita. Aquelas meninas metidas a solidárias têm tudo a ver com nossa heroína Fu Lana, que não passa de umazinha. Quem diria que aquele backzinho, no final da tarde, complicaria tanto a sociedade, não é mesmo?
E quando a violência chega na burguesia, gera maior passeata e protesto de uns maconheiros playboizinhos caras-de-pau. Que dureza a real. Quadrinho besta, mas tão certeiro que dá nojo.
E a Constituição? Que ão? Nosso país tem de ter uma saída. Começar por onde? Em quais instituições você confia? Vamos trabalhar, porque de quadro geral quem entende é muralista, aqueles escritores em cujas obras cabem o mundo inteiro e onde ficam claras e explicadas todas as implicações, a coerência e as idiossincrasias. Fu Lana já disse isso?
Melhor continuar indo ao cinema. Prá ver se aprende. Escolinha bem boa essa.
Tropa de Elite é nossa cria. Minha, tua e da Fu Lana. Um compra, outro usa, alguém mata, dedura e morre asfixiado. Enquanto a caravana passa. Enquanto as passas de uva continuam sobre os bolos das debutantes. E a trilha do Tropa? De dar medo. É terremoto, baile funk, batida da favela. Fu Lana nunca foi a um evento dessa natureza. Aliás, não arreda mais o pé de casa. Anda só com o documento de identidade, sem dinheiro, cartão ou cheque. Vai ao GNC da esquina, volta ligeirinho. Sociedade doente a nossa. Quanto tempo demora para isso virar? Em quantas gerações mudaremos? Quando e como encontrar os amigos, beber algumas, festejar? Mesmo assim, escondida do mundo, ela passa pelo porteiro e ele conta (sempre tem um que conta) sobre uns caras que, na noite, arrombaram um chevette velhinho ali na frente, e levaram uma pá de coisas, além de quebrarem o carro todinho. Ela não consegue passar ao largo do mundo cão. Na pracinha, um atraque nos maconheiros. O filme não tinha acabado.
Mad Max é fichinha para o nosso futuro. Andaremos armados dentro de nossas próprias casas. O pai de Fu Lana quis lhe dar um revólver. Com balas. Ela deu cinco passos para trás. Ainda não tem estômago para ser moderna.
Como a gente sai dessa? No way.
É sentar, mudar de assunto, e esperar. E largar o vício, é claro.

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