Havia decidido escrever a coluna desta quarta-feira sobre pequenos erros e equívocos que a imprensa gaúcha comete no dia a dia em coisas tão simples e banais, que bastaria conferir melhor a informação que vai repassar ou recorrer ao Tio Google para dirimir qualquer dúvida (sim, hoje temos este grande amigo e colega de profissão, que quando eu comecei no jornalismo não existia). Tudo porque na segunda-feira, no tal Correspondente Ipiranga das 12h50min, na Rádio Gaúcha, um repórter, que se diz especialista em trânsito, avisou para os ouvintes evitarem o cruzamento da Rua Washington Luiz com a Rua Vasco da Gama, em Porto Alegre, porque a sinaleira daquele local, em função das chuvas também não estava funcionando. E fiquei a pensar como estas ruas poderiam se encontrar, a Washington no bairro chamado Centro Histórico e a Vasco no Bom Fim. Talvez, segundo a Fonte da Informação, só pelo fato de conseguirem se cruzar, se enxergar, ficarem tão íntimas, mesmo distantes, duas ruas tão dispares, já mereceriam um semáforo.
Colecionaria outros deslizes do jornalismo nosso de todo o dia, para não implicar só com o repórter da Gaúcha, que certamente referia-se à Rua Vasco Alves, esta realmente cruzando com a Washington e que poderia sim ter conferido o nome da rua. Uma conhecida no facebook ao ler um post que fiz sobre o assunto, disse que quase mudou seus itinerários com base nas informações das rádios naquela segunda-feira sobre os pontos de alagamento, sinais sem funcionar e congestionamento. Imagina se ela evita o cruzamento da Washington com a Vasco da Gama para fugir de problemas. Primeiro teria que descobrir tal cruzamento. Então, mesmo quem tem conhecimento da geografia da cidade necessita conferir e checar os nomes das ruas, até porque ao comentar sobre as encrencas causadas pelas chuvas, não pode arrumar outra incomodação ligando duas ruas impossíveis (sabe-se lá os engenheiros de trânsito) de se unirem.
Mas o querido facebook (como pude viver tanto tempo sem ele?) direcionou parte do conteúdo da coluna para outro assunto tão importante nos dias de chuvas e trovões. E como chove nesta amada Porto Alegre! A sobrevida insistente dos moradores de rua, sem teto, sem cobertas, sem um chuveiro para um banho quente, sem um café passado na hora, sem uma sopinha de legumes para sossegar a fome, sem um guarda-chuva ou sombrinha para atravessar a calçada e trocar de marquise, porque a que lhe abriga está repleta de semelhantes. Se a gente que tem agasalhos, casacos de lã, cobertores limpos para aconchegar as noites, banhos quentes, toalhas cheirosas para secar o corpo, cafés e chás quentes, canjas fumegantes e guarda-chuvas e sombrinhas, reclamamos da chuva, imagine os moradores de rua, sem este leque de possibilidades que nos assegura um inverno mais tranquilo (nem por isto imune às doenças) e o ir e vir na chuva sem tanta molhaçada.
E um amigo jornalista (não pedi autorização para citar seu nome, senão o faria), emocionou tantos colegas com um relato que fez de um gesto simples e que traduz como a solidariedade pode ser feita e o enorme efeito nos beneficiados. Ele dizia que iria esperar a umidade relativa do ar diminuir para levar um pacote de 300 gramas de grostolis folhado pro seu Adão, morador de um barraco de lona à beira de um muro embaixo de árvore na Avenida Carlos Gomes, perto de uma parada de ônibus, onde costuma sentar na frente e com simpatia cumprimentar quem passa. E prosseguia no comentário. “É um mulato gordo que aparenta mais idade, deve ser diabético e portador de outras doenças”. Para quem não sabe, grostoli é uma delicia culinária com sotaque italiano, em que a massa pode ser doce ou salgada e que é ideal para o lanche da tarde. A iguaria é também conhecida como calça rasgada ou cueca virada.
Imaginem o seu Adão, naquela tarde chuvosa de segunda-feira, receber de presente um pacote de grostoli para saborear sentado embaixo do seu barraco de lona. E o relato do colega emocionava mais: “Não faço perguntas e nem fotografo. Por vezes, se fecha na tenda de plástico ao lado de outra, onde vive um tipo mais jovem, que imagino ser filho ou parente. Literalmente amoitados num ambiente sombrio, úmido e fedorento, eles deitam certinhos nos mocós, que também usam de cozinha e possivelmente de banheiro”. Ele lembra que nunca levava algo de comer ou oferecia algum trocado, como ele costuma fazer com outros moradores de rua, porque imaginava que seu Adão recebesse apoio de moradores e transeuntes da região, uma das mais ricas de Porto Alegre. “Mudo de ideia ao verificar durante meses jamais qualquer vivente se aproximar nem mesmo para lhe cumprimentar. E tem gente que ainda reclama do frio, vento, chuva”.
Juntei trocados e fiz um estoque de pacote de bolachas compradas no supermercado do bairro e, tocada demais com o gesto de solidariedade do amigo, sai distribuindo alimentos e um pouco de carinho aos moradores de rua do bairro Bom Fim. Em cada marquise que passei, deixei um pacotinho de bolachas e umas balinhas (aquelas que a gente compra por peso nas lojas especializadas) para as crianças que se espremem em busca de agasalho, aconchego, brinquedos jogados no lixo. Com certeza, não mudei a realidade cruel e injusta da vida dos moradores de rua, mas plantei umas sementinhas de esperança e senti a cabeça mais leve ao deitar à noite sobre o travesseiro.

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