
“Esta cidade sobreviveu à Peste Negra, que a devastou nos anos 1348, 1575 e 1577, matando mais de um terço de seus habitantes. Mas tenho dúvidas se vai sobreviver a 18 milhões de turistas por ano”, diz Guido Biscontin, professor da Universidade de Veneza. No entanto, o turismo não é a única ameaça a esse inestimável patrimônio da Arte e História. Para o especialista em inundações, Edmund Penning-Rowsell, Veneza pode ser a primeira grande cidade do planeta a desaparecer com o aumento do nível dos oceanos.
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Forçados pela chegada do turismo em massa, os venezianos, mestres na arte de sobreviver às piores pragas da História, estão se refugiando em uma Veneza paralela, distante do borburinho da Piazza San Marco e do Grande Canale. São pequenos restaurantes, bares e lojas em tranquilas piazzas, à sombra de monumentos e prédios históricos que nem aparecem nos guias Michelin. Ao mesmo tempo, o aumento de 4.000% nos aluguéis no centro histórico, está forçando os moradores a emigrarem para as pequenas ilhas e bairros nas margens da laguna. O número de habitantes da cidade está caindo gradualmente – há 50 anos, era de 175 mil pessoas. Em 2001, caiu para 66 mil e atualmente, mal chega a 60 mil.
Os motivos? – A cidade está recebendo uma carga humana para a qual não está preparada e nem possui infraestrutura adequada. Promovida pela indústria do turismo como uma das mais belas cidades do mundo, os visitantes passaram de 1 milhão e meio em 1960 para 6 milhões em 2007 e se prevê 16 milhões em 2010.
Neste total não estão incluídos o flagelo dos viajantes de um dia, que os italianos maldosamente chamam de turisti mordi e fuggi, uma modalidade perversa do turismo, que não deixa receita por onde passa, carrega sua própria comida e pernoita em ônibus ou acampamentos improvisados. E agora surge uma sofisticada versão dos turisti al giorno – que desembarcam dos grandes navios de cruzeiro, lotam a Piazza San Marco, tiram fotos dos pombos, compram alguns souvenirs e voltam para o navio, deixando o mínimo de euros na cidade.
Aos poucos, La Serenissima se transformou em um destino one day trip; pois ficou mais em conta fazer um lanche em terraferma e passar um dia na cidade, sem gastar quase nada. Paradoxalmente, os milhões de turistas que chegam a Veneza estão gerando cada vez menor renda para a cidade. Os hotéis e restaurantes 5 estrelas, no Centro Storico, precisam cobrir seus altos custos e têm dificuldades para competir com pousadas improvisadas em residências e sanduíches levados de casa.
O historiador de arte Peter Humfrey, um inglês que mora na cidade há 10 anos, adverte para outro flagelo que desfigura Veneza: os grandes estandartes e cartazes publicitários que cobrem as fachadas centenárias de palácios e igrejas. São formas para arrecadar o dinheiro para cobrir os altos custos de manutenção dos prédios, ameaçados pela aqua alta, pela maresia e pela poluição que vem do distrito industrial de Mestre. Grande número dessas jóias da arquitetura medieval e renascentista, foi vendido a bancos ou fundações, que, impedidos de alterar as fachadas, apelam para os grandes banners e estandartes.
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Assustados pela fama de cidade de preços altos e diante de cardápios cada vez mais globalizados, chefs e donos de restaurantes formaram o Ristoranti della Buona Accoglienza (ou restaurante da boa acolhida), para recuperar a tradicional cozinha veneziana, baseada em produtos frescos, comprados diariamente no mercado do Rialto. São pequenos refúgios, procurados pelos venezianos e visitantes regulares, que descobriram as belezas das ilhotas espalhadas pela laguna.
Um bom exemplo é o Alle Testiere, que ressuscitou pratos ausentes nos cardápios dos restaurantes procurados pelos turistas. Como gnocchi con calamaretti ou spaghetti con le vongole veraci, uma perfeita combinação veneta de massas com frutos do mar. O lugar tem apenas nove mesas e fica na ilha de Sant’ Erasmo. Na vizinha ilha de Mazzorbo foi aberto um minúsculo hotel de apenas seis quartos, o Venissa, com um restaurante que funciona justamente na baixa temporada. Uma pequena ponte liga a ilha com Burano, onde se pode passear com tranquilidade, apreciando as belas construções de cor pastel. Um segredo que os venezianos guardam para si – fugir para a laguna para evitar as multidões invasoras.
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Muitos poetas, músicos e escritores ficaram de tal maneira cativos dos encantos de Veneza que mudaram-se para seus palácios e lá se deixaram ficar até morrer. Eles escreveram sonatas, poemas ou odes inspirados pela história trágica e aventuresca de La Serenissima. Lord Byron dizia temer o dia em que os magníficos pallazi afundassem nas águas do Grande Canale. Durante uma viagem à Europa, Mark Twain escreveu uma série de cartas para jornais de San Francisco e New York, com o título “Os Inocentes Viajantes”. Ao descrever os encantamentos de sua visita à Veneza, proferiu um vaticínio que hoje soa como uma ameaça presente:
“Os restos do evangelista São Marcos foram enterrados nos alicerces da grande catedral, que esperou 400 anos para recebê-los, para que, assim, a grandeza e a segurança de Veneza ficassem garantidas para sempre. Mas até hoje, os anciões venezianos acreditam que, se estas relíquias forem profanadas, a velha cidade desaparecerá como um sonho e suas fundações desaparecerão sob um mar sem memória”.

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