Sempre que fechava uma manchete, como editor de capa ou de esportes, e a notícia dizia respeito ao Inter, eu convidada o Seu Wilson a dar uma opinião. Se ele aprovava, a página era liberada. Se ele fazia qualquer objeção, recomeçava a busca pelo título mais preciso, ou a legenda, o olho e etc. Coloradíssimo, ele sabia ser bastante crítico com o time do coração, em caso de algum revés, e empolgado na medida certa nas vitórias. Era meu termômetro. Se passasse pelo crivo dele, eu estaria livre dos telefonemas de colorados paranóicos no dia seguinte. Não tinha o mesmo problema em relação ao Grêmio porque sou gremista, e imaginava avaliar com maior possibilidade de acerto o sentimento da massa tricolor, embora o cargo me obrigasse a ficar frio. Qualquer um que tenha trabalhado com esportes sabe que não é balela. Anos de convívio profissional com o futebol reduzem em razoável medida as passionalidades, embora não as elimine totalmente. Mas isso é tema para outro dia. Voltemos ao Seu Wilson.
O mais antigo dos contínuos – ou “auxiliares de redação”, como preferem os modernos que, contudo, não lhes aumentaram os salários – da redação de Zero Hora, ele era das raras pessoas a serem chamadas de senhor mesmo por ocupantes de cargos mais altos. O presidente da empresa, jovem e pouco chegado a afetações do cargo, sempre foi o Nelson, ou Nelsinho. Com ele era diferente. Lauro Schirmer, Carlos Fehlberg e Augusto Nunes sempre o trataram por Seu Wilson, a exemplo de todos os colegas. Tornou-se um ícone. Chegava-se a perguntar: “Tem algum Seu Wilson por aí”? Longe de representar menosprezo aos demais, se tratava de uma forma bem humorada de definir o papel dele no imaginário da redação.
Problemas de saúde o levaram à aposentadoria precoce. Não o vejo há alguns anos somente porque não moro aí. Quando estava em Porto Alegre cheguei a visitá-lo em companhia da Sandra Valentini, que neste tempo todo jamais o abandonou. Certa vez ela chegou a ser intimidada por fazer uma vaquinha destinada a ajudá-lo. “Não pegaria bem”, disse a voz da burocracia. “Pode parecer que a empresa o abandonou”. Sandra continuou. Ainda hoje se preocupa. E não são os presentes que ela leva a razão principal da alegria do Seu Wilson, mas a visita em si. Todo mês, chega perto da data em que ela costuma aparecer, Seu Wilson se anima. Quer saber notícias, pergunta por todos, lembra de cada nome. A redação era sua vida. Ainda é. Hoje outros Seus Wilsons fazem o trabalho. Tomara que ao menos no imaginário da redação sua presença persista. É só isso que ele pediria. Mas, se alguém quiser ligar para ele, acho que ficará feliz: 3257-5116
Dedicado, é claro, ao Seu Wilson

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