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Sigo na contagem dos dias, sem saber quantos faltam

Por Márcia Martins

Apenas mais 40 dias e eu completo exatamente um ano no jamais imaginado isolamento total, sem essa palhaçada de distanciamento controlado e de colorir de amarelo, laranja, vermelho ou preto o mapa do Estado. Sim, serão 365 dias sem sair do apartamento, apenas para levar o lixo lá embaixo no prédio, fazer exames de saúde, rotinas médicas e pequenas caminhadas pelas ruas do bairro, em horários de pouco movimento. Nesta quarta-feira, em que assinalo na minha agenda o 325° dia mantendo os cuidados sugeridos pela OMS, sinto que, apesar do cansaço físico e mental, renasci uma pessoa melhor e mais cidadã.

Nos primeiros dias do confinamento, que foi quase imposto pela minha filha e orientado pelo meu médico, eu projetava, no máximo, uns 90 dias trancada entre quatro paredes. Não tinha ideia do alcance da Covid-19 e da rápida propagação e, infelizmente, acreditava que as autoridades governamentais teriam maior responsabilidade em buscar soluções. Mas, ao contar mais de 225 mil brasileiros e brasileiras mortos pelo Coronavírus, quem não percebeu a gravidade da situação e o descaso do Governo Federal, é porque não tem o mínimo respeito com o próximo e desconhece o significado da palavra empatia.

Às vésperas de fechar um ano no confinamento e chorar quase 11 mil mortos no Rio Grande do Sul, tenho a real dimensão do meu papel no combate à pandemia. E, apesar de inúmeras vezes, ter a nítida impressão de que iria fraquejar no meu propósito, rompi o tal isolamento somente para o necessário ou quando as condições indicavam um cenário quase livre de todos os perigos.

Foi assim, a única vez que, atendendo um convite de um casal de amigas que se cuida muito, visitei meu irmão, cunhada e afilhado lá em Butiá. Ao contrário de outras ocasiões, o passeio foi bate e volta e ficamos todo o tempo ao ar livre. Umas três ou quatro vezes, fiz rápidas incursões no apartamento da minha filha e sua namorada, para poder olhar melhor o rosto de Gabriela, já que carinhos não estão permitidos. Também para ver o neto canino Quincas Fernando, que somente em dois curtos períodos neste isolamento esteve comigo e se encontra, desde o início do distanciamento, em guarda definitiva na casa das meninas.

Confesso que foi bem complicado. Sou o tipo de pessoa que gosta de caminhar pela Cidade Baixa e Bom Fim nos finais de semana. De passar um tempo livre na casa de Butiá curtindo as orgias gastronômicas. De fazer caminhadas nas campanhas eleitorais. De ter reuniões do partido, de movimentos sindicais e dos coletivos feministas. De passear no shopping. Bebericar um café e conversar com a amiga Lili. De chamar o Jorge para bater papo. De ir ao cinema. De levar o Quincas para gastar a sua energia ao entardecer na praça. Tudo, no entanto, está ainda proibido.

Não sei quantos dias ainda faltam para chegar a minha vez na fila da vacina e se estarei viva para ver meu braço ser imunizado e me salvar de tanto isolamento. Mas prometo prosseguir na insistência. E, por isso, agradeço quem me trouxe algum carinho nestes dias intermináveis: Gabriela, Laura, cusco Quincas, mano Nando, Flávia, Lucas, Gisela, Shirley, Lessa, Patricinha, Milton (este numa troca proveitosa de livros) e povo da Associação Cultural Poemas à Flor da Pele. Com exceção da Gabriela, Laura e do Quincas, as conversas foram sempre ao ar livre, através das “grades do condomínio que são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão”.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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