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Sinais insuperáveis da velhice

Quando se acumula experiência de vida (leia-se muitas velas para apagar no bolo de aniversário), alguns sinais da velhice ficam evidentes. Não me refiro …

Quando se acumula experiência de vida (leia-se muitas velas para apagar no bolo de aniversário), alguns sinais da velhice ficam evidentes. Não me refiro às idas frequentes aos médicos para tratar do que ainda pode ser preventivo. Não me reporto à falta de memória que nos trai toda vez que contamos de novo a mesma história ou toda vez que trocamos o nome de alguém. E nem falo da maior sensibilidade à temperatura fria porque parece que nunca se sentiu tanto frio como aos enta. Também não contabilizo as dores que nos atingem em partes antes tão propícias a todo o tipo de exercício e que motivam, quando ficamos um pouco mais idosos, uma farmácia repleta de analgésicos.

Os sinais insuperáveis da velhice são visíveis, no meu caso, com o aparecimento insistente dos fios de cabelos brancos na suíça (aquele naco de cabelo que se localiza quase na entrada da orelha). E não adianta tentar disfarçar (e eu juro que tento mesmo) puxando os cabelos que ainda permanecem na cor original – que nem eu mesma sei qual é depois de tantas químicas – para tapar os fios brancos. O que me obriga a tingir mensalmente os tais e indesejáveis cabelos que denunciam a idade. Porque, ao contrário de outras pessoas (do bem, inclusive), não gosto que os fios brancos apareçam. Eu detesto. Eu tenho pavor. Eu simplesmente me tapo de nojo.

O que mais tem me incomodado ultimamente não é um único sinal. Diria se tratar de um conjunto de sinais que detectei, noite destas, ao sair do banho noturno diário. Sim, apesar da idade avançada ainda mantenho o hábito do banho uma vez por dia ou noite. Pois, mesmo enfrentando baixas temperaturas e recém curada de uma gripe que foi atenuada com o Tamiflu, embora não tenha sido confirmada como Gripe A, perdi uns 10 minutos sem colocar a roupa numa sessão exaustiva de colocação de cremes. Porque os anos pesam e é comum algumas partes do corpo caírem, umas ruguinhas antes até simpáticas se tornarem carrancudas e as mãos ganham um aspecto mais, digamos assim, cheias de nervos.

Para combater ou disfarçar rugas, flacidez, pés de galinha e mãos idosas, é preciso usar e abusar dos cremes. De todos os tipos, cheiros, tamanhos e consistências. Com ácido não sei do quê, produto retinol importado do Japão, líquido de preenchimento vindo da França e até mesmo as soluções nacionais. Tudo vale para parecer mais jovem.

Na tal noite, juro que contei uns oito creminhos depois do banho. Para as rugas ao redor dos olhos. Para sinais perto dos lábios. Para o pescoço. Para uma pequena celulite que se deposita na coxa (nem é tão pequena assim). Para aspereza no cotovelo. Para evitar a calosidade nos pés. Para hidratar o corpo todo. E para as mãos.

Toda esta sessão intensiva de cremes, remédios e medicina heterodoxa para rejuvenescer ou, pelo menos, não parecer ainda mais velha, termina me confortando e me fornece ânimo para mais um século, quem sabe. No final da terapia, fico me achando muito melhor do que aos 15 anos ou 30 anos. Antes, não tinha a malícia, o jeito de ver melhor as coisas, de ir fundo sem medir tanto as conseqüências, pois já não tenho mais nada a perder. Sei lá. Estou cada dia mais bonita.

A colunista está em férias. Esta crônica foi publicada em 25/07/2012.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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