Há notícias que revoltam. E há notícias que nos fazem questionar se estamos, de fato, protegendo quem mais precisa de proteção.
A prisão de dois empresários de Novo Hamburgo, durante uma operação da Polícia Civil que apreendeu mais de 100 TB de material relacionado à exploração sexual envolvendo crianças e animais, já era, por si só, um retrato do lado mais nojento da humanidade. Mas a informação de que ambos foram colocados em liberdade no dia seguinte transforma a perplexidade em indignação.
Faço aqui um esclarecimento importante: não sou jurista. Não conheço os detalhes técnicos do processo, os fundamentos da decisão judicial nem os requisitos legais que levaram à revogação das prisões. Não seria honesto, nem responsável, fazer um julgamento jurídico sobre uma decisão que desconheço em profundidade.
Mas sou cidadão.
E, como cidadão, tenho o direito de dizer que algo parece profundamente errado quando uma operação dessa dimensão termina com a sensação de que tudo voltou ao ponto de partida em menos de 24 horas.
Vivemos uma época em que esses crimes aparecem com mais frequência. Não necessariamente porque aconteçam mais do que antes, mas porque a tecnologia, o trabalho das polícias e as denúncias finalmente começam a iluminar uma realidade que sempre existiu, escondida atrás de portas fechadas, telas de computador e “clubinhos” canalhas.
Como militante da causa animal e defensor incondicional da proteção das crianças, não consigo olhar para uma notícia como essa com frieza. A exploração sexual de seres vulneráveis representa um dos níveis mais degradantes da condição humana. É uma violência que destrói vidas, deixa cicatrizes permanentes e alimenta um mercado criminoso que só existe porque há consumidores.
É justamente por isso que a resposta do Estado precisa transmitir segurança à sociedade. Não estou falando de condenações antecipadas, nem de desrespeito ao devido processo legal, pilares fundamentais de qualquer democracia. Estou falando da percepção que fica para quem acompanha os fatos de fora. E essa percepção importa. Porque a confiança da população na Justiça também é construída pelo sentimento de que crimes dessa gravidade recebem uma resposta compatível com seu impacto.
Quando decisões como essa acontecem, mesmo que juridicamente corretas, cabe ao sistema de Justiça compreender que elas produzem um enorme abalo na confiança da sociedade. A lei pode ter suas razões. Mas a população também tem o direito de esperar que aqueles investigados por fatos de tamanha gravidade sejam tratados com o máximo rigor permitido pelo ordenamento jurídico.
No fim, sobra um sentimento difícil de explicar. Não é sede de vingança. Não é desrespeito às instituições. É a sensação de que as vítimas continuam vulneráveis enquanto a sociedade tenta entender o que aconteceu.
Porque, diante de uma notícia como essa, talvez o maior dano não seja apenas a liberdade de dois investigados. É a impressão de que estamos falhando justamente onde deveríamos ser mais firmes: na proteção de crianças, de animais e de todos aqueles que não conseguem se defender sozinhos.
E quando isso acontece, não é apenas uma decisão que está em debate. É a confiança de uma sociedade inteira que se sente ultrajada. E talvez seja justamente aí que esteja a maior derrota. O gaúcho gosta de lembrar, com orgulho, o verso do Hino Rio-Grandense que diz: “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a Terra.” Pois que esse episódio jamais sirva de modelo para ninguém. Porque uma sociedade que vê investigações dessa gravidade terminarem, em menos de um dia, com os investigados em liberdade, sente-se ultrajada. E um povo que se sente ultrajado não celebra façanhas. Cobra respostas.


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