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Sobre Design e Arte (II)

      Fui eu quem provocou. Não sabia que um debate sobre arte e design suscitaria tanto prazer. Recebi até algumas dicas incentivadoras de alguns interleitores. …

      Fui eu quem provocou. Não sabia que um debate sobre arte e design suscitaria tanto prazer. Recebi até algumas dicas incentivadoras de alguns interleitores. Antecipo que seus nomes permanecerão em segredo até o final da série “Discutindo sobre alguma coisa uma vez por semana”.

      Sobre os conceitos de arte e design, o baile continua, cada vez mais alegre, ma non tropo. Os “não-a-fins” que me desculpem, porém a um tolo não se segura (não frente a uma possibilidade, mesmo remota, de retórica). Se não faço a guerra, preciso me ocupar com algo mais construtivo. Nada melhor do que estar entre a arte e o design.

      Uma interleitora afirma que as origens da arte e do design não são as mesmas. Posso compreender que ela aponte o fato de que as primeiras noções oficiais de design datam da Revolução Industrial, no entanto discordo fundamentalmente quanto a considerar este registro como um marco inicial na história do design. Em um curso sobre arte ocidental – com o professor Armindo Trevisan – revi imagens que há muito tempo haviam se afastado de minha memória. Duas delas, objetos contundentes para o corte de pedra contra pedra feitos por homens, lá nos idos de um bilhão de anos antes de Cristo. E devido à existência de algumas centenas de milhares de anos de diferença, entre um e outro, o professor Trevisan chamava a nossa atenção para a maneira como as lascas foram retiradas no segundo objeto, “com mais elegância”, em relação ao primeiro. Até mesmo o professor falando sobre isso é design. Certamente, o homem que fez o segundo objeto pôde ser mais hábil, tendo adquirido melhor manejo, meios e métodos para criar formas mais sofisticadas. Portanto, seriam as mesmas as origens da arte e do design: a necessidade, a inquietude, a curiosidade e a habilidade do homem. Nessa ordem. Não me parece que haja, portanto, intervalo cultural entre as duas áreas, como sugere nossa interleitora.

      Por outro lado, concordo plenamente que ambas (arte e design) fazem referência a seus períodos sociais. Afinal, essa afirmação é básica e lógica. Nada consegue existir dissociado de seu período social. Estamos em um só mundo, a atmosfera é a mesma. Até o Universo é o mesmo. Se houver varíola no Oriente Médio estaremos doentes aqui, no Ocidente, em menos de onze horas. Não sei em que tempo a doença atingiria outras galáxias, ou mesmo se chegaria lá.

      Uma semelhança que chega por mail: design e arte “expandem-se no espaço”, ou seja, necessitam de forma. Sim, parece-me mais fácil encontrar semelhanças entre arte e design do que diferenças.

      Aposto que não encontraremos a diferença básica nos conceitos originais de arte e design. Assim como nem todo o design será arte, alguns trabalhos artísticos também não serão “bela arte”, ou em inglês, mais sonoro, “fine art”. Posso assim concluir que a semelhança ou a diferença entre ser ou não arte está na força do trabalho. E, voltando ao princípio, no exato conceito de arte. O trabalho com design pode se desenvolver sobre fundamentos estéticos, com tratamento técnico adequado e específico e ainda assim ser arte. Mesmo que persiga a função como objetivo principal. Quem poderá dizer que o design funcional não é de uma perfeição estética “que beira a arte”? Poderíamos nos arriscar a usar (nesse caso) aquele conceito: “bom design”; apesar dessa expressão trazer um quê de sectário.

      (Como não teremos cloluna na Páscoa, só mais um parágrafo).

      Lembro, finalmente, de uma discussão sobre forma e função quando do estudo da Bauhaus, escola alemã de uma época de grande incentivo à indústria, ao design, à valorização da técnica associada a uma idéia de sociedade ideal, perfeita, em harmonia e equilíbrio com a ciência e com (algumas) leis da natureza. Tal imagem foi abalada pela realidade da guerra que trouxe, para a vida e para a arte, deformidades, contradições, destruição, novas formas e linguagens.

      Tergiversamos. Por história da arte, dentre a história dos homens e, logicamente, através da história do design. Do “achismo” e também de sua opinião.

([email protected])

Autor

Clo Barcellos

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