Não dou entrevista. Não dou nada sobre meu governo. Tenho recusado sistematicamente. Eu responder a questionário, dar entrevista, não dou, não. É como regra, como conduta.
A postura é do general Ernesto Geisel em resposta a um pedido de entrevista do jornalista Joel Silveira, lindamente retratado no documentário Garrafas ao Mar, dirigido por Geneton Moraes Neto. Ditadores são assim, desprezam a necessidade de informação, sem a qual a sociedade perde o equilíbrio e acaba sobrevivendo às cegas, com as notícias falsas reinando soberanas e destruidoras do tecido social.
O quadro que vivemos hoje na sociedade brasileira se reproduz diariamente dentro desta linha nebulosa. Quando governo e seus representantes se recusam sistematicamente a responder aos questionamentos da imprensa, é à população que estão negando o acesso às informações. Como fez o ministro da Saúde ainda neste fim de semana, quando respondeu com um silêncio ofensivo às perguntas de repórteres sobre o desorganizado processo de vacinação contra Covid-19.
No Brasil, além da pandemia causada pelo coronavírus, vivemos a pandemia social estimulada pelo presidente Jair Bolsonaro. Com repetidas ações de hostilidade para com profissionais de imprensa e de desprezo para com o papel da mídia, contribui para criar um ambiente de instabilidade e insegurança generalizados. E lamentavelmente é um ambiente seguido por seus fiéis e patéticos escudeiros no Planalto e na esplanada dos Ministérios: ali, seus ocupantes sistematicamente silenciam em vez de responder aos pedidos de informação feitos pelos veículos.
Ainda agora em fevereiro, Bolsonaro pregou, em live com seu filho Flávio, deputado pelo PSL, que ideal seria acabar com veículos como O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão para que as “notícias falsas parassem de circular”. “O certo é tirar de circulação, não vou fazer isso porque eu sou um democrata”, afirmou, agredindo um princípio tão inerente à democracia como a liberdade de expressão.
A postura do presidente é irresponsável e leviana, mas tem articulação e objetivos bem definidos. Tenta caracterizar os jornalistas e a mídia em geral como inimigos do povo e especialmente de seu governo, conduta, aliás, que praticava desde quando era candidato. Como presidente, não mede palavras para atacar e ofender, como no caso da repórter que acusou de só se preocupar com furo. Ou como com o jornalista que ameaçou encher a boca de porrada. Ou ainda, ao usar uma expressão chula como reagiu ao episódio do leite condensado para as Forças Armadas.
Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, o jornalista Eugênio Bucci foi direto ao ponto quando disse que “a falta de modos, a selvageria discursiva que o caracteriza não tem precedentes. Nem o general Médici se expressava com essa baixeza”. Quer dizer, temos um presidente que se manifesta tal qual, ou pior, que o maior ditador que tivemos na nossa história recente.
Qual é o resultado de tantas e tão repulsivas demonstrações agressivas para com uma profissão tão nobre quanto a de jornalista? De forma inicialmente quase imperceptível, mas que ao longo do tempo vai tomando corpo, a hostilidade e a violência contra jornalistas e a informação se disseminam de forma alarmante. Realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas, o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil de 2020 revelou que o ano anterior foi o mais violento, desde o começo da década de 1990. A Fenaj levantou 428 casos de ataques, inclusive dois assassinatos, um aumento de 105,77% em relação a 2019, quando também já havia ocorrido um aumento dos casos de violação à liberdade de imprensa no país.
Em nível internacional o desempenho do Brasil não é menos vergonhoso. O ranking mundial da liberdade de imprensa organizado pela organização Repórteres Sem Fronteiras mostrou o país na 111ª posição. Está em queda crescente, para constrangimento de brasileiro: estava em 102ª em 2018 e 107ª em 2020. Nunca o país ocupou posições tão ruins desde que a lista foi criada, 20 anos atrás.
Então, neste 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, há pouco a comemorar, muito a lamentar – e um caminho longo para que entidades da área e seus profissionais sigam trabalhando para mostrar que, ao contrário do que pensam ditadores e seus simpatizantes, informação é sim um bem de primeira necessidade.


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