“Uma caminhada por Paris nos dá lições
de História, de beleza e do sentido da vida”.
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Alguns bons amigos, de regresso de uma temporada em Paris se queixam que, mesmo encantados por tudo aquilo que vivenciaram, se sentiram como Jack Lemmon, quando declarou:
“Não importa aonde eu vá em Paris, sempre tenho a impressão que eu sou o único sem convite.”
Talvez o grande ator e comediante tenha apenas cometido um bad joke, porque pessoas inteligentes como ele sabem que Paris é uma recatada Vielle Dame, relutante em entregar os seus melhores encantos. A grande atriz Simone Signoret disse certa vez:
“Diante do fracasso da linha Maginot em deter os alemães, os parisienses criaram outra muralha muito mais eficiente contra os invasores – o mau humor.”
Mas nem sempre se pode culpar os parisiens – já presenciei um compatriota perder a compostura em um restaurante, porque um garçom não entendeu seu pedido de feijoada – feito em português, com forte sotaque de Bauru.
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David Lebovitz, o jornalista norte-americano que vive e escreve sobre Paris há 15 anos, tenta fazer com que os visitantes entendam o espírito parisiense, para que possam aproveitar os encantos da Cidade-Luz. Procurada por 10 milhões de turistas a cada ano, a cidade transborda na alta temporada – serviços saturados, hotéis lotados, comida ruim e cara, além de filas intermináveis nos locais turísticos mais famosos. A cidade encantadora e amável que amamos ver no cinema – talvez a Paris de Gene Kelly em An American in Paris ou a de Woody Allen em Midnight in Paris –, não existe na realidade. Ela pode ser encontrada, se procurarmos viver a cidade como fazem os nativos, fugindo das tolas obviedades e dos lugares desgastados pelo turismo.
Naturalmente, isso exige malabarismos para driblar os dissabores e aproveitar o eterno charme da cidade idolatrada por Ernest Hemingway, Pablo Picasso, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Greta Garbo, Audrey Hepburn e outros tantos fabricantes de sonhos. Quem o conseguir, verá que Paris é uma festa permanente:
1. Desconsidere o cocô de cachorro em seu caminho naquela charmosa ruazinha de Montmartre. Em vez disso, procure ouvir o som de saltos altos no piso de paralelepípedos. Deve ser uma modelo de Dior a caminho de um desfile de moda na rue de Rivoli.
2. Quando, em Notre Dame, os clochards vierem pedir esmola, vá sentar-se ao sol às margens do Sena e saboreie um gelato aux chocolat. E se os bandos de pombos fizerem sujeira em sua cabeça, espere um pouco para ver acesas as luzes da Tour Eiffel.
3. Precisou enfrentar o Metro às 6 da tarde? Faça uma pausa para ouvir os violinistas na próxima estação. Você se sentirá na plateia do Palais Garnier, que é como os locais chamam L’Opera.
4. Esperou três horas na fila para subir na Tour Eiffel? Entre no café mais próximo e peça um café crème e croissants, vá sentar-se a uma janela, abra o Le Monde e olhe as pessoas passarem na rua.
5. Se perder a paciência com multidão de árabes e chineses em fila diante das lojas de griffe nas Galleries Lafayette, experimente as pequenas lojas ao redor da Place des Vosges.
6. O garçom atendeu vocês de cara fechada? Peça uma porção de Boudon noir e, na sobremesa, Île flottante. E acrescente: pas de partager. Você vai surpreendê-lo e será tratado com respeito.
7. Sei, contrariado, porque os motoristas de táxi não falam inglês – nem francês. Por outro lado, anime-se: sua mulher (ou namorada) vai usar a moda parisiense antes do que todas as amigas.
8. Se o garçom daquele típico bistrôt parisiense que lhe foi tão recomendado é vietnamita, pode apostar que o chef também é. Levante-se, faça de conta que vai falar ao celular, e procure outro lugar para comer.
9. Planejando jantar no Café de Flore ou no Deux Magots? Peça para a concierge de seu hotel fazer a reserva e dê um nome como Rousselet ou Armand. Será recebido como um cliente normal e não vai sentar naquela mesa debaixo da escada.
10. Paris é uma cidade cara em qualquer moeda. Mas oferece centenas (milhares?) de espetáculos gratuitos. Como sentar em um banco dos Jardins de Luxemburgo e olhar as velhinhas de chapéus floridos passearem com seus petit chiens. Ou ouvir os sinos de Notre Dame tocarem na hora do Angelus. E, se depois disso sentir fome, lembre-se que ali perto, no Le Soufflé, na Place Vendôme, servem o “melhor soufflé da França”. Palavra de Julia Child. Não é de graça, mas vale seus sous.
Agora sim, você pode dizer que se sente como um parisiense de verdade…


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