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Solitários e vítimas

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“(…) Não posso amar-te mais do que te amo.” 

Marlene Dietrich.                                 

De tempos em tempos, alguém descobre cartas ou manuscritos de personalidades famosas, desencavando segredos que não deveriam alimentar a curiosidade popular. Foi o que aconteceu com a coleção de cartas trocadas entre Ernest Hemingway e Marlene Dietrich. Ninguém esperava palavras tão amorosas e delicadas vindas do grande conquistador e aventureiro. Que revelam a sofrida e adolescente paixão de dois ícones de nosso tempo. 

***

O caso aconteceu justamente quando Hemingway se tornou um dos autores de maior sucesso da língua inglesa. Seus romances ‘O Sol Também se Levanta’, ‘Por Quem os Sinos Dobram’ e ‘Adeus às Armas’ vendiam como pão quente nas livrarias de New York, Londres e Paris.

Em uma carta, endereçada ao amigo A. E. Hotchener, o escritor descreveu o seu primeiro encontro com a atriz alemã em 1934, a bordo do S.S. Île de France:

“Acabei vítima de uma paixão de partir o coração.        

Espantoso, mas é verdade.”

Outras cartas sugerem que a relação prosseguiu durante os duros tempos de guerra e sobreviveu a três dos quatro casamentos do escritor. Anos depois, enquanto Marlene Dietrich se apresentava em shows na Alemanha, Ernest Hemingway se suicidava com um tiro de carabina em Idaho, poucas semanas antes de completar 62 anos. Em uma carta, ele recorda o tempo de correspondente de guerra na Guerra Civil Espanhola e fala de seus amores: 

 

“Na vida, tive cinco grandes paixões, a República Espanhola, a Infantaria, as caçadas e as mulheres.”

As cartas de Marlene Dietrich são mais explícitas e confirmam sua ardente paixão. Como a que escreveu em agosto de 1952 e que Hemingway diz ter sido a que mais o comoveu:

“Quero pôr os meus braços à volta de teu coração.

Quero beijar-te para sempre e mais um dia.

Não posso amar-te mais do que te amo,

nem mais profunda nem mais longamente…”

E como uma adolescente apaixonada, admite sentir ciúmes das esposas de Hemingway que ele chamava de “filhas”. Em um dos casos, o alvo foi a atriz sueca Ingrid Bergman. Ao que ele rebate:

“Sente-te furiosa como quiseres.

Mas saiba que só existe você e nunca haverá outra.”

 

Quase ao final, Hemingway escreveria, conciso e sofrido:

                        “Somos solitários, vítimas de uma paixão dessincronizada”.

 

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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