
“Não há presente ou futuro – apenas o passado,
acontecendo agora e sempre se repetindo.”
Ricardo Güiraldes.
Ele escreveu uma série de antologias, contos e poemas sobre hábitos,lendas e vivências do pampa argentino. E antes de morrer cedo demais, aos 41 anos, produziu um dos grandes épicos da literatura latino-americana, Don Segundo Sombra. Apesar de tudo, Ricardo Güiraldes não se considerava um escritor de verdade, dizendo ser apenas a sombra de seus antepassados mortos.
***
A novela Don Segundo começou a ser escrita em Paris e foi concluída em 1926, quando Ricardo Güiraldes regressou a San Antonio de Areco, um pequeno povoado no sul argentino, onde viveu os melhores anos de sua juventude. Conta a trajetória de Fábio Cáceres que enfrenta as dureza da vida no campo, até se transformar em um herói de si mesmo.
Mas, ao contrário de Martín Fierro, o famoso clássico de José Hernandez, evita romantizar a figura do gaúcho, mas mostra seu comportamento diante das transformações na sociedade argentina. Nos meios conservadores, a novela foi mal recebida ao denunciar a modernidade urbana como responsável pela marginalização do homem rural. Ao mesmo tempo, é intrigante como Don Segundo revela a resiliência de Fábio Cáceres ao sofrimento, antecipando os anos finais do autor, vítima de doença incurável e dolorosa.
Ao final, Fábio Cáceres se encontra diante das águas de uma lagoa, que como um espelho, refletem as imagens da infância. Ele pressente que se aproxima um momento decisivo,quando será inevitável sua separação do passado aventureiro. Como antecipa anos antes em Poemas Solitários:
“Tenho medo de olhar para a minha dor, Não que eu cresça mais do que ela. Prefiro encarar meu dever como uma bravura de esporas. E afundando na preguiça, em uma morte de covarde. Para andar com a testa firme no pampa da dor dos outros. Este é o fim que quero merecer”.
***


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial