O tempo passou rápido demais, os velhos bondes já não existem, o casarão da Avenida Independência está abandonado e vazio. Como desafiou por tanto tempo o avanço do concreto e das modernidades, é um enigma que desisto de entender. Mas quando passo por ali, um amargor me sobe à boca. Dizem que não se deve mexer com o passado, mas ainda consigo ouvir, junto às dilapidadas escadarias de mármore, os acordes iniciais daquela sonata.
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Ele chegava em casa pontualmente às 6 e meia da tarde. Saudava a família, pendurava o casaco e sentava-se ao piano para tocar com energia, quase com fúria. Em silêncio ritual, ouvíamos sua música preencher salas, escadas e jardins, calando o clang-clang dos bondes que subiam a avenida. Imagens e sons que cristalizaram-se em minhas lembranças adolescentes – o pai tocando com paixão, fazendo balançar as velas nos castiçais do velho Blüthner. O tempo passou, outros pianos preencheram meus sonhos, mas as notas daquela sonata ainda não silenciaram de todo.
Muitos anos depois, era um fim de tarde no setembro de 1999, em Buenos Aires. Fugindo da chuva gelada, parei sob as árvores da Calle Cerrito. Os cartazes do Teatro Colón anunciavam o recital da noite, todos com a tarja vermelha “Lotação Esgotada”.
Era o retorno de Martha Argerich à sua cidade ao final de uma tournée ao redor do mundo. No programa, uma partita de Bach, o concerto nº 20 de Mozart, encerrando com uma de suas execuções mais festejadas: a Sonata para Piano nº 23, a Apassionata de Beethoven.
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Na bilheteria, um senhor de cabelos brancos lia placidamente seu jornal. Desfiei uma longa estória, sobre um pobre estudante de música, cujo sonho de vida era ouvir a grande Martha Argerich. Alguma coisa em minha estória deve ter comovido o velho bilheteiro – pois ele coçava a cabeça, tirando e recolocando seu boné de veludo. Por fim, disse-me para voltar cinco minutos antes do concerto começar. Engoli um lanche em bar próximo e voltei ao teatro.
O bilheteiro mostrou os ingressos não reclamados, que poderia revender, se seus compradores não aparecessem antes das portas fecharem. Logo apareceram os donos dos balcões e camarotes, restando apenas um lugar na platéia. Do lobby, a sineta avisou que o concerto estava por começar. O homenzinho conferiu o relógio e empurrou o bilhete pela portinhola, recolhendo o maço de pesos que lhe passei.
O Colón estava em festa, brilhando em dourados e vermelhos. As pessoas haviam se vestido com apuro para a ocasião – menos eu, que não tivera tempo nem de trocar de roupa. Nada a lamentar, pois no minuto seguinte, Martha Argerich emergiu no palco para ser recebida com uma interminável ovação de boas-vindas.
Foi um recital memorável, a platéia estática e deslumbrada, reverenciando a grande dama do piano. Com seus longos cabelos negros ondulando sobre o teclado, encerrou o concerto, arrancando do piano toda a força, melancolia, grandeza e paixão da música de Beethoven.
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Naquela noite, os sons da última sonata permaneceram comigo por longo tempo, enquanto eu caminhava de regresso até um velho casarão de Porto Alegre, onde aprendera minhas primeiras lições de música e de vida.


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