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Sou eu assim sem você

Os filhos sempre pedem para que as mães passem no supermercado após um dia intenso de trabalho para comprar aquele biscoito da marca x …

Os filhos sempre pedem para que as mães passem no supermercado após um dia intenso de trabalho para comprar aquele biscoito da marca x ou o prato congelado para a janta daquela noite. São especialistas em invadir o quarto das mães no meio de uma madrugada de sono confortante para reclamar da uma dor de cabeça e exigir que as mães localizem o remédio imediatamente. São mestres em lembrar que precisam daquela roupa amassada dentro do roupeiro, para usar na balada da vez, e que ela deve estar passada, pronta para ser usada em dois segundos.

Eles têm urgências para ontem, emergências previsíveis, necessidades que as mães precisam resolver e solucionar em prazos quase impossíveis. E o que é pior, as mães resolvem e solucionam. Qualquer encrenca. Qualquer passadinha rápida no súper. Qualquer remédio no meio da noite. As mães podem até desfilar uma lista de reclamações ao receber estas demandas (eu faço), mas interrompem as suas próprias atividades para realizar os pedidos dos filhotes.

As mães reclamam e muito da desorganização e bagunça dos quartos dos filhos, das roupas jogadas sobre a cama, de papéis em excesso (extratos, contas pagas e folhas do colégio e faculdade) entupindo a bancada do computador, de garrafas de água vazia jogadas no chão. Arrisco até dizer que a frase: “isto aqui até parece um chiqueiro”, é quase um mantra entoado pelas mamães de filhos adolescentes. As mães reclamam de atrasos dos filhos em compromissos, de que não escutaram o despertador tocar ou de que não atenderam o celular em uma das 49 vezes que elas ligaram para saber se estava tudo bem.

É comum as mães não dormirem o sono dos justos enquanto os filhos não retornam em perfeitas condições das baladas dos finais de semana e passam no quarto das mamães para dizer que está tudo bem. Também é usual que as mães percebam que nem sempre seus corpos voltam à estrutura original (100%) depois da gravidez dos seus rebentos. Assim como é de praxe que as mães reclamem de que já não tem tempo para suas próprias prioridades, que já não dominam as suas vidas e que tudo no seu mundo gira em função dos filhos. Porque o mundo de uma mãe deixa de ser seu no exato momento em que ela engravida e passa a ser do seu filho, para sempre!

Todos estes pedidos urgentes dos filhos, as solicitações de última hora, a solução para as encrencas dos rebentos têm o seu valor inestimável. Todas as reclamações das mães, os resmungos, a cara amarrada pela desarrumação do quarto, a falta de tempo têm o seu valor inestimável. Sabem por quê?  Simples. As mães ficam umas verdadeiras baratas tontas quando os seus filhos estão ausentes. As mães se sentem órfãs quando os seus filhos saem de férias. Mesmo que seja por um período mínimo de sete dias. As mães perambulam feito zumbis pelas suas casas quando os filhos partem para intercâmbios, cursos de meses e se afastam dos seus olhos.

Esta mãe que vos escreve está assim. Descontrolada. Descompassada. Desnorteada. Desmedida. Desorientada. Não sabe mais o que inventar para este tempo infame passar logo e chegar o dia que a filha voltará de férias. Já marcou vários happy hours com as amigas para não estranhar entrar em casa e não sentir falta do cheiro da filha. Fica assinalando no calendário e na agenda os dias que faltam para a filha retornar de sua breve e curta passagem pela praia. Volta e meia vai até o quarto da pequena (???) para ter certeza de que ela não está por lá.

Fazer o quê? É a sina de todas as mães. Viver em função dos filhos. E juro, se alguma reclamar desta rotina maternal e deste amor descomunal, não sabe a dor de uma saudade. Pois eu ando assim, entoando a música “Fico assim sem você”, do Claudinho e Bochecha, mas que me agrada imensamente na voz da Adriana Calcanhoto, pelos cantos desabitados do apartamento. Avião sem asa, fogueira sem brasa, amor sem beijinho, circo sem palhaço, namoro sem abraço, piu-piu sem Frajola, futebol sem bola, neném sem chupeta, Romeu sem Julieta, carro sem estrada, queijo sem goiabada, sou eu assim sem a Gabriela Martins Trezzi.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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