Cinema também é desconforto. Diversão e surpresa podem acontecer ao escolher o filme pelo título, e não pela sinopse. Lírios D”água sugere o romântico, mas é um filme punk.
Fu Lana, fuga em prática, deixou bilhetinhos para os queridos e escondeu-se no cinema. Nada havia lido sobre Lírios D”água. Já no escurinho perfeito do ambiente, descobriu que o filme é francês, e também pela abertura, que tratava sobre mulheres. Raios. Mulheres são tão chatas. Romance entre mulheres, então? Um porre. Primeiro, porque elas ficam o tempo todo negando a situação e imaginam muito mais do que fazem. Pensando bem, melhor assim, pois se a sensação já é pesada, imaginem o fato, íntimo e particular.
A descolada Fu Lana descobriu-se constrangida e ficou vermelha no cinema. Pode? As situações que ocorrem entre meninas adolescentes francesas, imaginem, são tão desconcertantes, que nossa heroína descobriu-se caipira na capital gaudéria. A diretora (leu sobre ela no hall do cinema, na saída) tinha apenas 27 anos ao fazer o filme e o trabalho foi selecionado para Cannes. Céline Sciamma tratou de um tema secreto e delicado para as mulheres e, tal como Brokeback Mountain para os homens, soou como se fosse um triller. Obviamente menos poderoso, beirando o baixo orçamento.
As cenas do balé aquático (engraçado, Fu Lana detesta balé aquático) tornam o filme até instrutivo, mas é fora da água que o clima pesa. Para variar, no verão de Céline, os homens não valem meia pataca, o que, aliás, Fu Lana até arrisca: é bem verdade. As mulheres estão tomando conta do mundo.
Os pais desapareceram. A mágica da direção cinematográfica é colocar, em um som distante de televisão, a ilusão de vivermos em grupos familiares. Ou na aparente fuga das meninas, sugerir pais que nunca dão as caras. A sensação de não ter a quem recorrer, denunciar ou culpar, pelas ações inusitadas das garotas é um sentimento à parte. Pais ausentes, a situação mais comum na vida da gurizada hoje é demonstrada sem decoro. As meninas estão descobrindo até a cor dos próprios poros sem testemunhas, só apenas nós, os voyeurs de plantão.
E a quem se aliar neste filme de meninas diferentes? À menorzinha, de braços grandes e quase muda? À lindinha, que os meninnos adoram e as colegas detestam e difamam? Ou à gordinha bobinha, de jeito e pensamento infantil, que não cabem no próprio corpo? Jogo duro, a vida. Talvez a felicidade exista mesmo dentro das esquisitices de cada um.
Sabe quando o massagista aperta um músculo tenso, que resiste em relaxar? Essa é a imagem que descreve os espectadores de Lírios D”água. Como se tivessem forçado a dor para posterior descanso. Cinema não é apenas entretenimento. O silêncio e a delicadeza de temas-tabu podem ser um exercício perfeito para testar o convívio com os diferentes. Desde que a individualidade está ditando as regras, onde cada um é um, sem igual, tal iniciativa pode ser salvadora do que resta da solidariedade.

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