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Tangos entre mármores

“A vida é um tango – se escorregares, continua bailando”. Pascual Contursi, tanguero. *** O poeta e escritor Jorge Luis Borges gostava de passear …

“A vida é um tango – se escorregares, continua bailando”.

Pascual Contursi, tanguero.

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O poeta e escritor Jorge Luis Borges gostava de passear pelas alamedas do cemitério de La Recoleta, em Buenos Aires. Ali estão enterrados grandes nomes da História da Argentina e ele comentava que estava visitando a “recatada morte portenha”. Borges esperava um dia repousar no mausoléu de mármore negro da família. No entanto, os caprichos do destino conspiraram contra e ele acabou enterrado a milhares de quilômetros de distância, em Genebra. Mas Jorge Luis Borges não foi o único argentino ilustre que não foi recebido em La Recoleta.

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No ano de 1871, uma violenta epidemia de febre amarela assolou a zona portuária de Buenos Aires. Quando os cemitérios locais ficaram superlotados, as famílias levaram seus mortos para o La Chacarita, na zona norte da cidade, já que o La Recoleta se recusava a enterrar as vítimas da praga.                                    

Com o passar do tempo, o campo santo da Avenida Guzmán foi consagrado como o local de repouso dos artistas que não podiam pagar as taxas dos cemitérios aristocráticos da zona norte.    Assim, no La Chacarita foram enterrados os músicos e cantores mais célebres de Buenos Aires. São tantos os jazigos erigidos em memória dos tangueros, que os boêmios do barrio comentam que  os que ousam passear pelas alamedas do cemitério, nas altas madrugadas, vão ouvir a inconfundível voz de Carlos Gardel, ou um choro de bandonéon. Os amigos de Anibal Troilo, que se cotizaram para construir seu jazigo, tiveram a ideia de fundir a figura de Pichuco em bronze, para que ele continuasse a tocar o tango. Não muito longe, fica o mausoléu mais visitado do cemitério, o de Carlos Gardel, sempre coberto de flores frescas, depositadas por fidelíssimos admiradores. Uma das tantas lendas de La Chacarita diz do cigarro aceso nos dedos da estátua de Gardel. Conta-se que uma cantante misteriosa, perdidamente apaixonada pelo cantor, visitava o jazigo todos os dias, deixando um cigarro aceso entre os dedos do cantor. O que ninguém explica é como o cigarro aceso continua lá, se a tal cantante morreu há mais de 30 anos…

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Quem continuar flanando entre os ciprestes do La Chacarita vai encontrar mais monumentos a figuras estrelares do tango – como os dos maestros Astor Piazzolla e Francisco Canaro, de Nelly Beltrán, dos cantores Edmundo Rivero, Héctor Palacios e do pianista Osvaldo Pugliese. E também ali repousa o mais festejado trio de poetas do tango: os compositores Celidonio Flores, Alfredo Le Pera e Enrique Cambalache Discépolo.          

Um outro hóspede ilustre de La Chacarita personificou grandes tangos – o jóquei Irineo Leguisamo, celebrado em Leguisamo solo, de Modesto Papávero, gravado por Carlos Gardel, amigo do ginete e assíduo frequentador das corridas. Anos depois, Gardel volta com uma nova ode à paixão portenha pelos caballitos: o tango Por una cabeza, que narra uma carrera vencida por Irineo Leguisamo, chamado com carinho como El Pulpo, que era o apelido do ginete nas cocheiras de San Isidro.

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Talvez um dia, os anjos que velam os tangueros de La Chacarita possam entoar, junto ao túmulo de El Pulpo, o tema de sua última carrera:

“Basta de carreras,

se acabó la timba.

¡Un final reñido

ya no vuelvo a ver!”

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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