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Tempo da delicadeza

Vivemos tempos difíceis. De intolerância. De turbulência. De raiva e intransigência. De rompimento de amizades pela simples exposição de opiniões divergentes. De afastamento de …

Vivemos tempos difíceis. De intolerância. De turbulência. De raiva e intransigência. De rompimento de amizades pela simples exposição de opiniões divergentes. De afastamento de familiares pelas posições contrárias. De olhar enviesado se o colega do lado não torcer pelo mesmo time de futebol que o nosso. De brigas nas redes sociais por qualquer motivo. De cara emburrada quando algo não sai como o combinado. De baixaria de torcidas em transportes públicos quando o time adversário é minoria. Os ânimos estão muito alterados. As mentes nervosas. Os corações disparados. As emoções descontroladas. Os sonhos escassos e os pesadelos abundantes.

Nunca omiti minha opinião sobre política e quem me leu alguma única vez na vida nos meus tantos escritos ou me acompanha pelas mídias sociais (o facebook é o que mais uso), conhece o meu posicionamento sobre o pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Não sou coxinha. Não sou petralha. Nem ignorante. Nem intransigente. Talvez um pouco radical. Mas sempre ciente dos riscos que o meu comprometimento político acarretou, acarreta e acarretará. Sou sim eleitora do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma. Votaria sim neles novamente. Não vejo motivos para impeachment e acho que está em curso no Brasil um golpe perigoso e que nos levará ao um retrocesso político e histórico muito assustador.

Mas tenho um hábito adquirido talvez com a educação recebida de papai e mamãe de respeitar os próximos e até mesmo os distantes em nome da boa convivência. Mas tenho uma mania insistente talvez de não entrar nas páginas de outros e demais instrumentos da internet para xingar e blasfemar contra uma opinião diversa da minha. São pequenas regras de etiqueta que carrego na vida real e transporto para meu mundo virtual. São pequenas normas de cotidiano que me auxiliam a acordar e dormir todo o dia com a consciência tranquila.

Nem sempre as pessoas respeitam as diferenças. Nem sempre as pessoas compreendem as posições conflitantes. Nem sempre as pessoas entendem que eu posso ser um ser humano repleto de qualidades e que não é a minha opinião exposta e retratada, discordante de outras, que me torna alguém sem moral, sem caráter e desprezível. E vice-versa. Também eu preciso exercer todo o santo dia as minhas doses de paciência, de tolerância, de transigência, de condescendência e contemporização.

Escrevo a coluna falando desta polarização de opiniões porque no domingo teremos, tudo indica, a votação na Câmara dos Deputados do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. E o Brasil poderá passar a ser desenhado (não acredito, mas como jornalista preciso pensar na hipótese) com tintas aparentemente novas, mas que carregam o vício da velha e amaldiçoada política. Independente do que ocorrer, exijo ser respeitada. E prometo, como tenho feito até então, continuar a respeitar os que não comungam com a minha opinião.

Quem sabe não esteja mais do que na hora de se inaugurar, neste País, um tempo da delicadeza. Como bem narrou Chico Lindo Buarque de Holanda na música “Todo Sentimento”, escrita por outros motivos, mas que pode sim ser adaptada. O homem dos olhos de ardósia disse: “depois de te perder, te encontro, com certeza, talvez num tempo da delicadeza, onde não diremos nada, nada aconteceu, apenas seguirei como encantado ao lado teu”. Mas se alguém pensar que escolhi o Chico porque ele é um defensor confesso da democracia e da manutenção da presidenta eleita Dilma Rousseff, é melhor mesmo desistir de tudo.

 

 

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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